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Beato Salu na Praça dos Três Poderes

Na oligarquia da Asa Branca de Dias Gomes e Agnaldo Silva, o que mais se temia era a volta de Roque Santeiro. Dezessete anos após o desaparecimento, seu retorno era iminente, ameaçando o fim do mito.

A principal ameaça era feita por Beato Salu, pai de Roque. Desprezando e merecendo a recíproca dos poderosos locais, anunciava não a volta do filho, mas o fim do mundo.

Extrato do Brasil, Asa Branca, tanto quanto o filho ilustre, segue viva em todos os sentidos no coração nacional.

O engenho contemporâneo, porém, parece escolado, e conseguiu neutralizar Beato Salu. Não em suas sandices, mas na percepção delas. Como? Arranjando um elenco ainda mais surrealista.

Naquele mesmo 1986, enquanto Roque Santeiro finalmente era exibida no horário nobre, nos Estados Unidos estreava a comédia “De volta às aulas”, estrelando um empresário tosco e milionário por vender roupas para gordos. Seu slogan era: quer parecer magro? Tenha amigos gordos.

O slogan parece ser a única explicação para a percepção ora vigente sobre o ministro Paulo Guedes. Com êxito profissional incontestável, apesar de alguma nebulosidade em pontos legais, PaGue é financeiramente rico como a estrela do filme, mas considerado intelectualmente tosco por um sem número de economistas, de quem mereceu o apelido inspirado no louco da novela: Beato Salu.

Ocorre que, se no coreto da praça de Asa Branca se encontram Pastorinha, ChanCelerado, colombiano ufanista do Brasil, todos regidos por Marte no mapa traçado pelo astrólogo da Virgínia, convenhamos que Beato Salu parece razoável. Com a Praça dos Três Poderes não é diferente.

O fazendeiro Sinhozinho Malta está apavorado com o desmame prometido, não quer chorar sobre o cadáver de Ametista. Assim como o industrial e comerciante Zé das Medalhas com a ameaça da faca. Os padres Hipólito e Alcindo seguem batendo cabeça. Sem falar na sombra cada vez maior do bando de Navalhada. Já o político Florindo Abelha mostrou o ferrão e disse que sem flores não vai ter mel – levou um bilhão em emendas e a promessa de cargos mil.

Porém, no pregão da Faria Lima, Beato Salu roubou a fala de Sinhozinho Malta e repete ameaçadoramente: tô certo ou tô errado? E o pessoal do asset assente, fingindo acreditar que, mais que durar, o paraíso do semestre passado se repetirá na terra se passar a reforma da Previdência, materializando a década do trilhão.

Os apóstolos de Salu não têm limites e creem que podem reeditar as escrituras. Falam em desvinculação geral do orçamento, um trava língua de três trilhões e trezentos milhões, versão 3.0 da Pec do Teto, mais R$ 2 trilhões em privatizações, R$ 120 bilhões de ajuste fiscal e por aí vai. Quem ousa duvidar é condenado a embarcar com filhos e netos num voo só de ida para Atlântida.

Graças a Deus, contudo, ainda há céticos. Clovis Rossi na Folha de hoje os apresenta. O primeiro é Mohame El-Erian, conselheiro econômico-chefe da Allianz, para quem urge aos colegas um olhar mais amplo; Gene Sperling, guru econômico do Partido Democrata americano, para quem dignidade econômica é a única meta, tendo por tripé capacidade de cuidar da família, oportunidade de realização, liberdade contra dominação e humilhação; e, vejam vocês, o professor Delfim Netto, que botou na mesma Folha um “talvez” em referencia a uma renda básica para confortar o cidadão mais vulnerável.

Ainda: obviamente a reforma da Previdência é necessária, porém muito antes de ser panaceia deve ser sabida como paliativa. Com as novas tecnologias viveremos mais e trabalharemos menos. Pleno emprego ao modelo de produção e consumo chinês ou americano para sete bilhões de pessoas explodiria o mundo.

Meu palpite é conhecido desta freguesia: só uma renda básica universal garantiria dignidade social e movimento da roda econômica. A parte boa é que a proposta é um dos raros pontos de convergência entre gente tão diferente quanto Eduardo Suplicy, Fernando Henrique, Bill Gates, Barack Obama, Ellon Musk, Richard Branson, OakLavo e Beato PaGue Salu.

 
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