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Acho que perdi alguma parte. Não estou entendendo mais nada

Se era mesmo uma estratégia do presidente Jair Bolsonaro governar emitindo sinais trocados para dissipar a atenção e a percepção de que quase ninguém sabe do que está tratando em seu governo, é justo dar-lhe os parabéns pelo êxito.

Falo por mim, que carrego diariamente a sensação de ter perdido alguma parte do que está acontecendo. Falemos dos últimos dias.

Faria Lima está eufórica com a visita da delegação Brasileira aos EUA. Bolsa deve bater cem mil pontos ainda hoje, recorde histórico.

Sinceramente não entendo. No jantar na casa do embaixador, o presidente Bolsonaro reservou o segundo melhor lugar a Olavo de Carvalho, que na véspera chamava de idiota o vice presidente, General Mourão.

Elegante como todo diplomata com janela, o embaixador Sérgio Amaral botou no cardápio do jantar purê de nabo, vegetal que melhor simboliza o bolsonarismo: é ardido, desperta paixões e cresce rápido, mas pode ser desenraizado por uma criança.

PaGue, informado do ataque ainda no voo para Washington, comentou: como pode o líder disparar contra a revolução que inspirou?

Ato contínuo, veio o golpe retórico. Bolsominions e carvalhinhos atacam nas redes dizendo que PaGue afirmou que OakLavo é o líder. Esta parte dá para entender. Lula também virou “o cara” quando Obama usou “that is my boy” para se referir a ele.

Tem mais sobre o uso esquema narrativo do lulopetismo. Por aqui celebra-se o crescimento da classe C, que seria a classe média, tão festejada naquele período. Segundo o IBGE, classe média é a família que ganha entre três e cinco mil reais por mês. Cada operador da Faria Lima deveria experimentar pelo menos uma semana sob tal orçamento.

Outro motivo de rojões no mercado financeiro foi a chamada privatização dos aeroportos na sexta-feira. Se o PT, com ojeriza da palavra, chamava de concessões, o sentimento ultra-liberal dos Chicago Elders adora tanto o termo que usa até quando vende para outros estados.

Celebraram o suporto ágio de 1000%. Curioso, fui verificar o valor mínimo fixado na outorga que permitiu tal conta. O lote mais cobiçado, dos aeroportos do Nordeste, partia de R$ 171 milhões. Por este preço não se compra um prédio de apartamentos no Leblon, onde vive o ministro da Fazenda. Mas compraria seis aeroportos, sendo quatro em capitais com forte apelo turístico.

Enquanto isso, sem conseguir segurar a língua, PaGue segue sendo o velho Beato Salu. Numa fala recente, desenhou o problema da concentração de poder em Brasília: se o presidente é Corinthians, surge o estádio do Corinthians, que ninguém consegue pagar. Podia ter encerrado aí, mas como de costume ignorou a freada e emendou: e o Corinthians começa a ganhar tudo, com juiz roubando a cada partida. A maior torcida do Brasil deve estar satisfeitíssima com o governo do presidente palmeirense.

Deputado federal e ora presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, Eduardo Bolsonaro integra a comitiva. Mesmo sendo o ZeroTrês, evolui como um príncipe que se sente o primeiro na linha de sucessão. Conseguiu duas proezas: chamou Cuba e Venezuela de escória da humanidade e disse que imigrantes ilegais são vergonha para o Brasil. Silas Malafaia, um dos gurus da teologia bolsonarista, anotou que ele “ajudaria mais se parasse de falar asneira”.

Algum jornalista que cobre a visita oficial deveria aproveitar a presença do presidente da Comissão de R.E. e DEFESA NACIONAL nos EUA para perguntar se ele cobrou das autoridades locais uma explicação sobre como 117 fuzis de uso exclusivo das Forças Armadas estadunidenses foram parar no Méier aos cuidados de um miliciano que, en passant, é vizinho e ex-cossogro do presidente Bolsonaro e acusado de matar a vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes.

Meanwhile no Brasil, grupos revoltados promoveram atos nas ruas contra o que chamaram de ataque do STF contra a Lava Jato, pelo tribunal ter decidido por 6X5 que o foro para crime de caixa dois é a Justiça Eleitoral. Entende-se a revolta. Mas fica confuso quando lembramos que, dias antes, o ministro Sérgio Moro, símbolo maior da Lava Jato, dizia que caixa dois não é tão grave quanto corrupção.

Acho que vou tirar uns dias para pensar na vida. Não estou entendendo mais nada.

 
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