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Vida longa para a Folha

As tão faladas mudanças na Folha de São Paulo vêm recebendo mais receio do que merecem.

Admito que também passei a terça-feira preocupado com o destino do maior jornal do país, notadamente em momento tão grave e agudo.

Nas dezenas de mensagens que recebi há uma unanimidade em trocadilho: a personalidade do Luís é fria e calculista.

Posso estar sendo traído por uma profunda torcida a favor da imprensa, que é fundamental para o equilíbrio social e para a saúde democrática. Mas só alguém burro destruiria sua galinha dos ovos de ouro – e definitivamente não é o caso do Luís Frias.

Em termos familiares, obviamente não vou entrar. E a parte editorial com o Sérgio D’Ávila está garantida. Falemos sobre a empresa.

Aposto que a Folha terá vida longa porque, antes que bom negócio, ela é o alicerce. Não só para o UOL ou do bilionário PagSeguro (US$10bi em Wall Street), mas da própria Nação e das instituições que a integram, cujo equilíbrio depende de uma imprensa livre e sadia.

Jornais tradicionais aqui e alhures atualmente só têm saúde com a combinação de duas das três condições: ser um selo relevante, ter dono bilionário ou pertencer a um conglomerado empresarial que se equilibra.

New York Times, Washington Post, Wall Street Journal são exemplos nos EUA e para o mundo. O Globo serve para o Brasil. The Guardian caminha para o modelo do NYT e, em que pese a fleuma inglesa, praticamente impõe que o leitor contribua financeiramente (esta freguesia pode fazer o mesmo aqui no BLC via PagSeguro). Financial Times foi comprado por japoneses, para quem a cultura do lucro não prevalece.

Na Europa continental (torcida pela permanência da necessidade do adjetivo), Le Monde balança mas tem bilionário estrangeiro de olho. El País deve muito mas segue crescendo e mantendo a qualidade, com a vantagem da língua original ser a segunda mais falada no mundo.

Em Portugal já não há quarenta redações no Príncipe Real e jornalistas lotando o SnobClub entre as 16h (fechamento) e a circulação (4h), mas Público e Expresso são ótimos, além dos esportivos Bola e Record, que cobrem até série B de bocha.

Em outras mídias há a Bloomberg nos EUA e, no Brasil, editora Abril, revista Piauí e todas as emissoras de televisão.

O caso da Folha se destaca num segundo trocadilho: a turma do Três Estrelas é três em um, isto é, ao mesmo tempo jornalão, conglomerado empresartial e tem dono bilionário.

Luís Frias sabe disso e não vai matar a Folha. Sabe que imprensa é bom negócio em si e que todos os demais dependem dela, porque se as redes de notícias falsas elegem chefes de Estado, inclusive o mais poderoso do mundo, o potencial de destruição que têm sobre qualquer empresa, sobretudo as financeiras, é avassalador. Basta comparar com as campanhas de saques bancários dos anos 1980, que corriam por telefone de disco e quebravam bancos grandes. São muito mais perigosas do que qualquer governo de plantão.

O público quer consumir notícia. E logo que a temperatura política amainar e o “vi no face” arrefecer, vai perceber o privilégio que é poder contar com a imprensa profissional organizada.

O fenômeno no parágrafo acima acontece em absolutamente todos os segmentos que ganham atenção de público novo. Tem até termo da moda: curadoria. Serve para moda, vinhos, música, artes plásticas, turismo, decoração, gastronomia, eventos sociais, esportes. E a imprensa tem a vantagem de ser absolutamente abrangente.

A questão quantitativa conta. A Folha deve tirar uns duzentos mil exemplares por dia num país de duzentos milhões de habitantes. Mas só no microblog twitter tem 6,5 milhões de seguidores. É um potencial de alta evidente e a aposta em liberar conteúdo on-line para todos os professores da rede pública ataca exatamente o alvo: formação de público.

O Pasquim tirava os mesmos 200 mil em 1970, quando éramos apenas noventa milhões em ação, sob o auge da ditadura militar e disputando com uma concorrência fortíssima. Numa conta rápida, pode-se dizer que hoje o @pasquim teria treze milhões de seguidores no twitter. E que a Folha tem potencial igual.

Por fim, os jornalistas, que vêm levando chineladas extensivas às próprias mães, acusadas de exercerem a profissão mais antiga, fiquem tranquilos: a profissão repórter é das raras que jamais poderá ser substituída por robôs, por depender imperiosamente do trato pessoal.

Vai passar.

(Texto escrito a seis mãos com amigos que vivem nos EUA e em Portugal.)

 
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