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1964: Quem cala, consente

Comentar o vídeo exaltação distribuído pelo Planalto sobre o golpe de 1964, mostrando o que ele tem de mentiroso e abjeto, muita gente já fez bem feito. Espero que as providências legais sejam tomadas pelos demais poderes e/ou pelas instituições que restam em pé.

Dentro do absurdo, dois detalhes chamaram minha atenção. Primeiro a menção ao “povo de verdade” que teria pedido o golpe, descrito como “pais, mães, igreja”. Quem não se enquadra em um dos três deve ser “povo de mentira” e temer ser “varrido”, conforme a proposta do candidato Bolsonaro? Depois a ênfase dada ao Exército, em detrimento da Marinha e da Aeronáutica, coincidentemente as duas armas menos alinhadas com o governo do ex-capitão e seus generais. Teriam sido esquecidas a pedido?

Pouco se explica sobre o clima nacional em 1964. Na tentativa de justificar o golpe, usam as recorrentes “ameaça comunista” e “ditadura deles”, tempero vulgar das receitas totalitárias, somado ao exagero da ameaça terrorista – esta inflacionada por atos do próprio regime, seja na instituição ou na manutenção, como aconteceu na explosão do Rio Centro.

É verdade que o mundo vivia sob a Guerra Fria e havia grupos guerrilheiros tocando o terror nas cidades brasileiras. Mas em um número já engordado não passavam de mil pessoas (Elio Gaspari), absolutamente incapazes de tomar o Brasil como fizeram com a ilha cubana ou criar naquele ermo tropical um Exército Vermelho de camponeses e operários ao modelo chinês. A narrativa de “guerra” do general Mourão não cola. Com inteligência seriam facilmente neutralizados. Porém, o Estado preferiu inchar a ameaça e usa-la como desculpa para prender, arrebentar, torturar, matar e roubar, impedindo as chamadas Reformas de Base de João Goulart.

Lamento frustrar quem imagina que Jango instalaria o socialismo no Brasil. O que ele propunha naquele então foi tratado como consenso desde a Constituinte até a ascensão, anteontem, dos celerados que hoje governam o Brasil.

Quem acha que discorda por favor tente encontrar alguém sensato que, na Educação, seja contrário à erradicação do analfabetismo, valorização dos professores e matriz curricular orientada pelo Método Paulo Freire. Ou que não reconheça a necessidade de uma reforma Fiscal mais justa para quem ganha menos. Ou que se oponha à reforma agrária pela distribuição de terras cultiváveis esquecidas, de propriedade da União, e direitos trabalhista iguais no campo e na cidade. Ou que seja contra habitação digna para todos. Ou ainda que ache natural a maquiagem da contabilidade de empresas multinacionais para permitir a remessa de lucros obtidos no Brasil sem tributação.

A Constituição de 1988 mostrou que Jango estava certo no conteúdo, mas errou na forma deixando prevalecer o discurso carbonário de seu cunhado Leonel Brizola sobre o tom moderado do ministro da Fazenda San Tiago Dantas, que defendia um avanço gradual. Foi a senha para que o establishment, combinado com os EUA, orquestrasse o golpe e apoiasse a ditadura militar que ficou 21 anos.

Como aparentemente a gente não aprende, de novo surgem grupos apoiando o mesmo processo. É importante lembrar que muitos dos apoiadores do golpe de 1964 em pouco tempo se viram perseguidos pela ditadura. E que, se arrependimento não mata, sempre resta um cabo e um soldado para fazer o serviço.

Não tenho a menor esperança em mudar o olhar de quem defende ditadura. Mas faço questão de cobrar os que calam por conveniência, como Sergio Moro, que quando juiz dizia que a ditadura foi um grande erro, e agora ministro se recusa a afirmar que os termos “golpe” e “ditadura” são historicamente precisos. Ditadura é o novo caixa dois.

Ou Paulo Guedes, que quando Chicago boy serviu à ditadura de Pinochet, e agora Chicago elder se cala ante as celebrações do chefe. O silêncio fala alto. Também vale para cada membro dos supostos liberais que integram sua equipe. Joaquim Levy, Roberto Campos Neto, Marcos Cintra, Paulo Uebel, Caio Megale, Salim Matar… calados os senhores são coniventes.

 
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