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Direita e esquerda ou transformar a ferradura em aliança

“Tá legal, eu aceito o argumento. Mas não atrase o samba tanto assim…”
Esquerda e direita é um conceito político de duzentos e tantos anos, que surge numa divisão física e pontual entre dois grupos numa sala. Mas incrivelmente permanece válido e muito além de seu momento. Inegavelmente é um clássico.
Agora, sendo clássico, tem que valer a qualquer tempo. Há dois mil e tantos anos, como seria? Sócrates, por exemplo, era de esquerda? Platão, seu discípulo, de direita? Aristóteles no centro, tranquilamente.
Mais recentemente, Jesus, o Nazareno? Esquerda, claro. Sua biografia é igual a do Sócrates. São Paulo é direita, óbvio. Daí Lutero era esquerdista? E o Calvino?
Voltando às aulas no começo do ano imaginei pedir autorização ao Mackenzie 1870 para instalar na escadaria que fica no umbigo do campus de Higienópolis uma escada Santos Dummont filosófica. Colar adesivos com pensadores de esquerda e de direita nos degraus correspondentes.
Enrosquei já no Agostinho. Não consigo saber onde ele está. Tomas de Aquino, suspeito, está no centro. Maquiavel mereceria dois degraus, com o jovem à direita e o velho à esquerda (contrariando Churchill, que fez o caminho inverso). Com os contratualistas é moleza. Hobbes na direita, Rousseau na esquerda, Locke no centro. Kant direita, Hegel esquerda? E o Marx? A turma acha que comunismo é de esquerda, mas é de centro.
Deixei pra lá ao ouvir a conversa de dois colegas na Maria Antonia. Um deles se encantou com a política em 2013 e debutou no ativismo aderindo ao Movimento Passe Livre. Foi black bloc, filiou-se ao PSOL, mas se desencantou com o partido quando virou aluno do Olavo de Carvalho. Hoje está no PSL e seguiu carreira militar depois do serviço obrigatório. Em duas horas de conversa com um amigo, gastou uma atacando homossexuais. A um colega que descobriu seu passado psolista se justificou dizendo que Daciolo também foi filiado, falando do Cabo como referência de integridade moral. Como não sentir compaixão por uma pessoa que enfrenta uma barra assim durante a juventude?
Sobre torta e direita o que prevaleceu até outro dia foi a definição do Bobbio: “A direita considera a desigualdade social tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite. A esquerda encara como uma aberração a ser erradicada.” Suspeito que seja por isso que, entre um e outro, a turma de esquerda gosta de se reunir no Arpoador para ver o poente, enquanto a turma da direita tem que ficar dentro da classe, olhando para a lousa, bem ali em frente, no colégio São Paulo.
No Brasil a melhor análise é do Antonio Prata. Por exemplo: catchup é de direita e mostarda de esquerda. É brilhante principalmente por causa das cores, para confundir bocó.
Particularmente e sem qualquer modéstia eu adoro a minha: esquerda é caviar e direita é bandejão. Por falar em bandejão, militar marcha assim: esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, direita. E o general Santos Cruz disse ao Roberto D’Ávila na Globo News que não pode existir na mesma sociedade uma pessoa ganhando mil e outra cinquenta mil. Vai encarar?
Na França, onde a turma costuma pensar, tem um movimento de jovens de direita que defende a família, o regionalismo e o meio-ambiente, atacam a União Européia e os capitais voláteis e são fãs do… Bernie Sanders. Ah, também são católicos – e francês contemporâneo religioso é algo tão revolucionário que pode ser de esquerda. (Ler Mark Lilla numa Piauí recente.)
Maravilha mesmo é a Geringonça portuguesa. Terrinha dando um baile.
Enfim, eu queria dizer dos rótulos que lamento muito cada um deles. Igual a tudo na vida tem um lado bom, mas no fim das contas servem para confortar os idiotas, o tal individuo contemporâneo, centrado em si e especialista em um troço qualquer, condenado a viver cercado, protegido e confortável no berço da idiotice.
Porém, igual ao príncipe Paulinho da Viola, o De Tocqueville do samba, aceito o argumento. Mas, por favor, não atrase o samba tanto assim. Vamos lá: Nazismo é o horror, ditadura nunca mais e a Tábata Amaral é uma deputada preparada e bem-intencionada. Teve formação bancada pelo Jorge Paulo Lemann mas aposto que, quando tiver que falar sobre subsidio para envasar em garrafa pet água com açúcar na Zona Franca de Manaus, votará contra os interesses do padrinho.
Ainda: tem um deputado federal chamado Paulo Guedes que é do PT de Minas. No mínimo é divertido. Só não ganha de ouvir o ministro PaGue ontem da Câmara elogiando o Bolsa Família, como não poderia ser diferente para quem vira e mexe fala em renda básica. Sabe aquela das pontas da ferradura? Pois então, a renda básica é uma das raras agendas universais capazes de transformar a ferradura em aliança.
 
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