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Rememorar 1964 requer força e prudência

No começo dos anos 1960, seduzido por uma campanha repleta de factoides do populismo mais baixo, o Brasil elegeu um maluco para a Presidência.

Ele não passava leite condensado no pão nem despachava calçando chinelos, mas em comício sacava sanduíches do bolso do paletó, em cujos ombros usava caspa artificial. E falava em varrer adversários, a corrupção, a bandalheira.

Empossado, não soube lidar com os demais poderes. Esperava governar com apoio popular. Como não havia twitter, renunciou falando em forças ocultas a fim de chocar o povo e em seus braços retornar absoluto. Deu ruim.

O vice era eleito por votação independente e não tinha afinidade com o presidente. Mas também não tinha tanto apoio popular. A solução que o Congresso tirou da cartola foi o Parlamentarismo.

Em convergência rara, cada partido recomendou o que havia de melhor em seus quadros. De UDN a PTB, em pacto selado através da política governavam Tancredo Neves, Walther Moreira Salles, San Tiago Dantas, Ulysses Guimarães, Armando Figueiredo, Gabriel Passos, Virgílio Távora, Franco Montoro. Reformas históricas passaram em tempo recorde, como só uma convergência ampla assim permite. (Em português da Virgínia, todo mundo com o cu na reta.)

O problema é que durou menos de um ano. Inflamado pelo cunhado carbonário, o presidente João Goulart – a despeito do avanço de agendas tão suas, tão óbvias, como décimo terceiro salário, direitos trabalhistas no campo, lei contra abuso de poder econômico etc – passou a trabalhar pela volta do presidencialismo e conseguiu. O poder concentrado tornou-se seu veneno, foi alçado à ameaça nacional e chamou o golpe de 1964, que deu numa ditadura militar de 21 anos, cuja ressaca ainda sentimos.

A turma que volta de Brasília nesta sexta-feira só fala em um assunto: Parlamentarismo. Porque ninguém aguenta mais o presidente maluco, bêbado de sono, que só faz jogar para suas galeras no twitter, atacando a política, apoiando quem ataca militares do primeiro escalão, incapaz de organizar uma base no Congresso.

Por “ninguém” leia-se autoridades civis e militares, parlamentares, governadores, mercado e o próprio eleitorado, que se mostra insatisfeito e frustrado, como as seguidas quedas de popularidade confirmam.

Por mais que repitam mentiras sobre o golpe de 1964 – e que tenhamos chegado ao absurdo de ver um ministro da Educação, sendo nascido na Colômbia, ter a audácia de propor mudar a história do Brasil contada em livros escolares –, os parlamentares  conhecem bem a história e sabem como acaba.

O dever de casa para este final de semana é obediente à ordem presidencial do final de semana passado, isto é rememorar 1964 e calcular qual será a saída: ficar até 2022 num Parlamentarismo oficioso ao modelo Dilma-Cunha, sob risco do maluco meter um novo 1961; forçar nova troca de comando, que em 2017 deu em Parlamentarismo viciado sob Temer-Maia; ou arriscar um Parlamentarismo combinado com Mourão, velado ou oficial como o de 1961-62, lembrando que historicamente o gaúcho não reconhece os limites da cadeira e que, dessa vez, o presidente teria o mesmo sobrenome e a patente daquele que deflagrou o golpe de 1964.

Força aí, excelências. Força e prudência.

 
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