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O Messias trocou água por água

O Google me disse que Weintraub, em alemão, significa uva de vinho. E no Gênesis a Bíblia diz que Abraão recebeu de Deus a dica para viajar à terra prometida de Canaã. Foi por ali que, muito mais tarde, Jesus Cristo, a pedido da mãe, teria realizado seu primeiro milagre, transformando água em vinho e contribuído para que as bodas de Caná continuassem animadas.

Hoje o presidente Jair Bolsonaro substituiu o ministro da Educação. Abraham Weintraub, leitor dedicado do Velho e do Novo Testamento, entra no lugar de Ricardo Velez Rodriguez. Mas ao contrário do primeiro parágrafo, nada indica que o Messias tenha transformado água em vinho.

Vale aqui um parêntese temporal. Eliane Cantanhede tinha razão. Se lá no primeiro parágrafo demoraram mais de 1500 anos entre a dica de Deus e a chegada do Filho com seu primeiro milagre, poucos dias foram necessários para confirmar a notícia da demissão.

Velez Rodriguez foi uma das indicações de OakLavo para o ministério de Bolsonaro. Porém, com o mapa astral contraposto à realidade da gestão da pasta, o astrólogo da Virgínia passou a rogar praga no afilhado. E sabe-se que praga de padrinho pega.

Ocorre que Abraham Weintraub é tão ou mais olavista do que Velez Rodriguez. Água da mesma bica. No ano passado, durante a Cópula Conservadora da Américas, versão direitista do Foro de São Paulo, Abraham apresentou sua bússola aos conservadores: “Quando um comunista chegar para você com papo “nhonhoin”, xinga. Faz como o Olavo de Carvalho diz para fazer. E quando você for dialogar, não pode ter premissas racionais.”

Será interessante ver lição aplicada na audiência que o novo ministro terá em breve na comissão de Educação da Câmara, aquela que alçou seu breve antecessor ao estrelato.

Abraham trabalhou o primeiro escalão do Banco Votorantim entre junho de 1994 e maio de 2012. Foi CEO e economista chefe por mais de dez anos. Em 2009, por problemas na seção de financiamento de automóveis, o banco balançou. Quem salvou a operação foi o ex-presidente Lula, mandando o Banco do Brasil comprar 49,9% por R$ 4,2 bilhões. Coisa de pai generoso isso de encher o caixa mantendo o controle com o filho pródigo.

Feito Cosme e Damião, ou Bertrand e Luiz, Abraham Bragança de Vasconcellos Weintraub anda grudado com o irmão Arthur. No governo de transição ambos foram responsáveis pela área de Previdência.

O curioso no dado acima é a influência da dupla em um tema que era tratado como técnico pelo governo Bolsonaro, mas talvez explique o aroma ideológico cada vez mais forte nas falas do ministro Paulo Guedes.

PaGue, por sinal, ao conhecer OakLavo na missão bolsonarista aos Estados Unidos, tratou de puxar a orelha do astrólogo. Para ele não fazia sentido ter indicado Velez e estar trabalhando contra em tão pouco tempo, emendando algo como “ajusta aí seu GPS astral, véio”.

Bolsonaro, porém, dobrou a aposta, confiando mais uma vez na indicação olavista, quiçá agora em comunhão com PaGue, além de Onyx Lorenzoni, primeiro elo dos irmãos Weintraub com o governo. Se patinar como o antecessor, pode contaminar outras áreas que ainda emprestam alguma sustentação ao governo.

E o efeito político não termina aí. A ala militar do governo foi contrariada. Os generais apanham diariamente de OakLavo e não são defendidos pela BolsoFamília. O ministro da Secretaria de Governo, general Santos Cruz, e o vice-presidente, general Mourão, são os alvos mais frequentes.

Mourão, por sinal, disse em Harvard que receia um eventual fracasso do governo para além do problema em si. Segundo ele, apesar das Forças Armadas não estarem no governo, é claro que há uma identificação e assim, se Bolsonaro errar demais, a fatura do prejuízo popular será entregue nas casernas.

 
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