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Bordel estatal

O mundo nem sempre foi assim. Na Grécia Antiga, muito antes da privatização entrar em moda, havia bordeis estatais e o preço do michê era regulado pelo governo. Consta que havia até um tipo de bolsa família, digo, bolsa folia, para garantir que nenhum cidadão fosse privado de uma alegriazinha eventual.

Mas este não era o único valor democrático envolvido – considerando o contexto helênico. Pelo amor trabalhavam mulheres de todas as idades, jovens rapazes atléticos e a freguesia era majoritária mas não exclusivamente masculina.

A cidade para além de aceitar aprovava o programa – com trocadilho. Atribuído ao poeta e estadista Sólon, gerou benefícios diversos, como redução de conflitos, emprego, renda, turismo (o Distrito da Luz Vermelha leva tanta gente para Amsterdã que a prefeitura pensa em proibir turistas no local para não atrapalhar o andamento dos trabalhos) e fortalecimento econômico.

No plano da ficção a melhor história de estatal do amor é Pantaleão e as Visitadoras. Ainda não li o livro, mas assisti ao filme inspirado na obra do marquês de Vargas Llosa, locado na floresta amazônica do seu Peru natal.

Pantaleão é um militar exemplar, burocrata diligente, e recebe a tarefa de organizar um serviço de visitadoras para acalmar o ânimo dos soldados que servem na selva. Missão dada, missão cumprida. Seus relatórios de atividades são primorosos.

Engana-se quem imagina escrevo sugerindo que o governo atual poderia ter algum tipo de serviço semelhante, quiçá capaz de aliviar o twitter.

Venho motivado pela excelente matéria do Rogério Gentile na Folha de hoje, narrando o caso que acabou com Justiça decidindo que prefeito não pode ceder área pública a bordel.

Contando um quarto de século, a história se passa em Rosana, cidade do interior paulista, onde em 1994 Tia Joana inaugurou a boate Corujinha, primeira casa da Vila das Garotas, com direito a discurso do então prefeito Jurandir Pinheiro, que viabilizou a “obra”.

Caso raro de política pública que não é descontinuada pelos sucessores, a vila atravessou múltiplas gestões e fez a fama da cidade, carinhosamente apelidada de Rozona.

Jurandir Pinheiro, falecido em 2014, era do PSD clássico, aquele do Tancredo. Seu sucessor, Newton Rodrigues, falecido em 2005, era do PPB (atual PP, descendente da Arena malufista). A ex-prefeita Sandra Kasai, do PSDB, cassou os alvarás da vila, mas porque o (adivinha!) Ministério Público mandou. E com a decisão judicial, sobrou para o prefeito atual, Silvio Gabriel, tomar de volta o terreno.

Mau presságio para o alcaide Gabriel, do PSD vigente, é a lembrança da experiência que seu presidente Gilberto Kassab teve encrencando com cafetão aqui em São Paulo.

Quando Oscar Maroni fez o hotel Bahamas, 40% financiado pelo BNDES, Kassab implicou, se não me engano, por conta da rota do aeroporto de Congonhas. Talvez tivesse razão, mas o hotel continua lá, bem como o lupanar, e atualmente é no pé do ex-prefeito que a Justiça se encontra.

 
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