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Tapa na peruca

Roberto Campos, ao receber um prêmio, caprichou o seguinte: Diferente das roupas de baixo, que só devem aparecer pontualmente, a modéstia não deve aparecer jamais. E eu adoro ser homenageado.

Em 2017 já se falava bastante da reforma da Previdência e, sem base técnica para falar de Economia, anotei em maio um palpite político, chamando a reforma de peruca. Está aqui.

Em 2019 o debate da Previdência segue uma peruca gigantesca e talvez ainda mais cruel, tanto quanto o ridículo pode ser. E a unanimidade aplaude, burra como também só ela pode ser.

Evoco Nelson Rodrigues porque a personalidade mais importante para o Brasil atual seria um dramaturgo talentoso, corajoso e obsessivo, capaz de iluminar a sociedade com holofote de ribalta.

Na falta de alguém da mesma altura, fico com o próprio Nelson e empresto a frase dele para homenagear André, filho do seu amigo Otto Lara Resende: Só os profetas enxergam o óbvio.

O jornal Valor Econômico é o palco do melhor debate acadêmico sobre Economia que este século já viu e começou com um artigo do ALR, atraindo gente boa. Pelo WhatsApp rola o paper completo, com tudo que tem direito: filosofia, fontes, ressalvas, autocritica e a mensagem fundamental.

Basicamente ALR explica: A) Sobre finanças e investimento “que é o gasto do governo que cria a moeda, e não a disponibilidade de moeda que viabiliza os gastos do governo”;  B) Questão fiscal: que a natureza dos impostos é distribuir e realocar dinheiro, não capitalizar o Estado; C) Política: “A razão nas questões de políticas públicas, relacionadas aos déficits do governo e à dívida pública está com Mosler e os defensores da Teoria Monetária Moderna (MMT na sigla em inglês): o governo não está sujeito a restrição financeira e a dívida pública não é um fardo para as próximas gerações.”

João Sayad entrou na dança festejando o ar fresco. Esticou os suspensórios a la Bob Fields e estalou um alto lá que deve sacudir a unanimidade que repete sem “análise, descrição, contra-argumento” a já hostil ameaça de caos caso a Previdência não seja reformada.

Vai além o Sayad, contrapondo a certeza de hiperinflação caso o déficit e a dívida pública cresçam. Ora, EUA, China e Japão fizeram mais da metade da dívida do mundo e, pelo menos no Japão, o problema é deflação.

Ambos, André e João, usam filosofia para explicar que as finanças não são um caso isolado. Muito pelo contrário, pertencem ao todo e, tanto no princípio quanto no fim das contas, devem servir às pessoas.

E especialmente o Sayad encerra com uma beleza de parágrafo que, noves fora a dispensável modéstia, aponta o caminho:“A previdência gasta mais ou menos R$ 600 bilhões por ano, sem o déficit. Com estes mesmos gastos, é possivel pagar R$ 2 mil por ano para cada brasileiro desde que nasceu. Com esta renda, pode-se levantar crédito, garantir uma aposentadoria, e muito mais. Um brasileiro de 60 anos teria R$ 120 mil de renda extra. Sua família, R$ 360 ou R$ 480 mil. Para 90 % dos brasileiros, é uma fortuna. O efeito sobre a juventude seria imenso – menos violência, mais educação. Para os velhos, mais segurança. Para os desempregados, mais amparo. É uma ideia radical e, aqui, mal formulada. Mas muito melhor do que exigir 30 anos de contribuição das novas gerações. Alguns países já adotam esta alternativa.”

Ora, se precisamos de um esforço político hercúleo para passar a reforma da Previdência, por que não assumir uma briga maior a favor de uma solução maior, melhor, sintonizada com a atualidade e livre do ridículo da peruca?

Fato: viveremos mais e trabalharemos menos. O modelo de produção e consumo chinês ou americano, que proporciona pleno emprego para 1,7 bilhão de pessoas, se expandido para sete bilhões explodiria o planeta. A coisa mais cara que existe é a pobreza. E num mundo tão polarizado, a Renda Básica Universal é das poucas agendas capazes de unir extremos, de São Paulo a Karl Marx, de Davos a Porto Alegre, de Paulo Guedes a Eduardo Suplicy, transformando a ferradura em aliança.

André, João e Valor Econômnico, obrigado.

 
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