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A estética dos cem dias

Jair Bolsonaro surgiu em frente a um painel com o número cem estilizado, sendo o número um sucedido pelo símbolo do infinito deitado, como se fosse dois zeros, mas que também é um oito evidente, que formaria um 18.

Então tirou da cartola dezoito ações. Não dezessete, seu número de legenda, que chegou a mencionar como “bom número” para a quantidade de ministérios durante o governo de transição; nem dezenove ou vinte, mas dezoito, indicando uma amarração estética com o logotipo do evento, como se não bastasse a sugestão de infinito, que não harmoniza bem com democracia e alternância de poder.

No discurso breve e atrapalhado, motivo de chacota que não víamos desde a passagem de Dilma Rousseff, sobrou estética. O “mar revolto”, citado pelo porta voz, foi a deixa para o Presidente falar em “céu de brigadeiro”, como que representações do presente a ser enfrentado e a promessa de futuro, além de sinalizar para a Marinha e a Aeronáutica, duas das forças menos alinhadas – ou mais constrangidas e preocupadas – com a associação dos militares ao governo.

O anúncio do décimo terceiro para o Bolsa Família é um aceno para os estratos sociais que mais rapidamente se decepcionaram com o começo do governo, e que foram decisivos para o êxito eleitoral. São basicamente os lulistas frustrados com o amargor econômico, ainda mais amargo depois da doçura experimentada no começo do século. A deputada federal Bia Kicis tratou de amarrar o enredo, dizendo que com a medida Bolsonaro subtraía o 13 da esquerda, número de legenda do PT.

Quem já leu sobre Joseph Goebbels, esteta do nazismo, sabe do poder de comunicação da estética e das mensagens subliminares.

Tudo isso e muito mais aponta que os detalhes estéticos são minuciosamente pensados pelo bolsonarismo. A aparente – e apenas aparente – tosquice de seu estilo de vida, do pão sem prato com leite condensado, passando pela prancha para coletiva de imprensa, até o chinelo com paletó e camiseta para receber auxiliares no Alvorada, contrastam fortemente com o onipresente Hélio Negão nas aparições de um político que coleciona declarações racistas, com o elegante alfinete de gravata com a bandeira do Brasil usado em viagem internacional, ou a composição da sala de café da manhã usada para receber jornalistas no Planalto.

Resta saber quem está por trás disso tudo. É alguém competente. Teoricamente seria o ministro da secretaria de Comunicação, mas os sinas são anteriores ao governo e o novo ministro, que acaba de assumir, só pode ser responsabilizado se trabalhou oficiosamente desde quando não se sabe.

Há paralelos estéticos com outros políticos populistas mundo afora, conforme citei aqui. E a proximidade da BolsoFamília com Steve Bannon, e deste com outros atores que se valem dos mesmos artifícios, faz a pulga atrás da orelha merecer atenção.

Mas o clássico brasileiro é sem dúvida Jânio, cujas semelhanças com Jair saltam aos olhos. Usava caspa artificial, paletó mal cortado e modos chulos em público, e em privado vestia roupa boa e se comportava como um lorde. Sabemos como acabou, porém convém imaginar como seria Jânio equipado de redes sociais.

 
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