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O vômito iminente

É preciso muito esforço para acompanhar a cena política nacional sem ceder à deselegância. Reflexo perfeito do clima nas ruas e nas redes, as formas de tratamento se deterioraram ao nível do absurdo, com consequente prejuízo do entendimento de qualquer outro tema.

Nada indica que o despudor seja superficial, como a espuma da onda que ferve quando quebra na areia, ou de uma vaia em minuto de silêncio. Isto é, a água em si é limpa, mas participando de uma onda, faz espuma. O indivíduo na arquibancada é bom, mas desumanizado pela massa, vaia um momento solene.

A espuma brasileira atual se parece mais com a da água podre, poluída, que vem do fundo e permanece, mesmo em remanso, em bolhas grandes e encardidas, arfando como um porco nos estertores.

E o pior é que, qual o idiota que vai aplaudir ou vaiar o espetáculo que acontece em campo, atento exclusivamente ao lado da torcida em que está, assistimos à podridão como se dela não fizéssemos parte, avalizando o absurdo institucional.

O ministro PaGue ser chamado de tchutchuca pareceu deselegante aos que fingiram não ouvir o distinto, discursando oficialmente em missão internacional, dizer em inglês que o presidente da República tem colhões. E vice-versa.

Com efeito, o mesmo esquema releva o absurdo que é um país com treze milhões de desempregados e outros tantos desalentados, com a economia do primeiro trimestre acabando em depressão, ter no ministério correspondente um maluco chamado de Posto Ipiranga, que fica ao lado da bomba brincando com um isqueiro, ameaçando auto explosão.

Daí a aplaudir sua exaltação às leis ultraliberais quando bajula o mercado, e relativizar intervenção presidencial no preço do diesel para evitar reação de um grupo organizado, é apenas coerência na incoerência. E vice-versa.

Projeto não há, nunca houve. Quem fingiu acreditar na sintonia entre PaGue e Bolsonaro participa diretamente do vexame. Que acrescente ao gadus morhua da Sexta-Feira a leitura de Perdoa-me por Me Traíres, do nosso grande dramaturgo.

Outros exemplos pululam. Para ficar em três:

Grupos indígenas que confraternizam em Brasília há quinze anos, na maioria das vezes em harmonia, em 2019, a pedido do GSI, serão recebidos pela Força Nacional, autorizada pelo ministro Sérgio Moro – o mesmo que curiosamente não cogitou usar a força do Estado para libertar territórios controlados por milicianos, onde prédios desabam matando gente, e paióis com 117 fuzis são descobertos, ou garantir o abastecimento das cidades em caso de paralisação dos caminhoneiros.

A ministra Damares, responsável pelas políticas públicas para mulheres, se abana de tesão falando do deputado Tulio Gadelha, e à deputada Tábata Amaral diz que, de tão linda, “nem precisava abrir a boca”. Lembro que Vera Fischer estreou no cinema assim. Explicou que não sabia atuar e o diretor devolveu: se ficar pelada, não precisa falar. Era pornochanchada.

E o tinhoso, que mora nos detalhes, segue firme aprontando as suas e desviando a atenção. O presidente Bolsonaro, que se fantasia de ridículo misturando chinelos, camisa de futebol e paletó para despachar com ministros, agora estuda proibir uso de calça jeans nas repartições da Esplanada dos Ministérios. Elegância…

Não sei quanto tempo o intestino brasileiro vai suportar. Minha esperança é que, depois do iminente grande vômito nacional, a gente respire fundo, lave o rosto e volte a dizer bom dia, com licença, por favor, obrigado, cultivando modos mínimos no trato para colher respeito e coerência nos diálogos.

 
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