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Paulo Freire parece mais inspirado em Locke do que em Marx

Paulo Freire parece mais inspirado em Locke do que em Marx

A sanha nacional em destruir nossos ativos parece não ter limite. Artistas, intelectuais e outras personalidades em geral amiúde são malhadas feito Judas em Sábado de Aleluia.

Mais recentemente vieram as instituições e entidades. Congresso, política, Judiciário, imprensa, universidades, igrejas, ONGs, empresas. Alguém há de dizer que deram motivos, como se um automóvel pudesse ser culpado por um atropelamento, e não a pessoa que eventualmente o conduzia.

Faz tempo que digo e repito aos que botam lenha na fogueira que esse tipo de fogo é incontrolável e só interessa aos carcarás. Em vão. Mas eu não desisto.

A vítima mais recente é Paulo Freire, tido como maior intelectual brasileiro na área da Educação, terceiro nome mais citado em trabalhos sobre ciências humanas em todo o mundo, graças ao método de alfabetização que criou na Universidade do Recife e provou ser eficaz alfabetizando 300 boias-frias em 45 dias na cidade de Angicos-RN nos anos 1960.

Atacar Paulo Freire como faz a súcia bolsonarista é malhar a um só tempo uma trintade, incluindo a pessoa, a entidade e a instituição.

O problema todo no entendimento parece vir do golpe de 1964. Como o êxito de Freire o credenciou para o programa de alfabetização de João Goulart, acabou embrulhado no recorrente pacote mentiroso da ameaça socialista que serviu para justificar a ditadura militar. Nem Freire nem Jango eram marxistas, mas ao se atreverem a trabalhar pelo progresso e pelo equilíbrio social, sofreram com os ataques da reacionaria empedernida que nos assola.

O Método Paulo Freire é simples como tudo o que é genial. Bota a cartilha tradicional de parte e busca reconhecer o aluno e sua cosmovisão. Então usa palavras presentes na vida da pessoa para alfabetiza-la através da alfabetização. As duas etapas seguintes são assustadoras: conscientização de mundo por meio da análise dos significados das palavras e formação de pensamento filosófico, separando mito de razão.

Não é difícil entender por que Bolsonaro repudia o MPF. E também por que alguém que abandona cartilhas e imposições pode ter lido Marx e concordado em alguns pontos, mas jamais ser considerado marxista.

Doutro lado, para Locke a linguagem era uma questão filosófica. Ele diz que a Língua só existe se a palavra for entendida e tiver o condão da comunicação. Isto é, “Eva viu a uva” pode fazer sentido numa escola em Roma, mas na Angicos da metade do século passado poderia ser repetida dez mil vezes sem significar nada. Que uva? Já “Chico chupa caju” tem a força do costume, que fala mais alto do que a natureza.

Se esta freguesia notou lógica e psicologia no parágrafo acima, saiba que concorda com Locke e entende o princípio da sua filosofia da linguagem, que condiciona a existência de uma ideia a sua comunicação em ato. E que, vote em quem votar, também concorda com Paulo Freire.

 
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