Facebook YouTube Contato

A origem da família Bolsonaro e um mergulho em sua piscina de ódio

Quem primeiro me falou do Bolsonaro foi um amigo que frequentava Brasília semanalmente. Apesar de chamar a ditadura militar de Redentora, tendo inclusive servido no gabinete do Gama e Silva, redator do AI-5, é um amigo querido.

Anos atrás, entre umas e outras num fim de tarde em São Paulo, me contou que tinha descoberto um tipo curioso na Câmara dos Deputados. Incrédulo porém fingindo endossar a grosseria para me provocar, disse de um cartaz que o surpreendera numa incursão ao Anexo III. Em referência à esperança dos descendentes dos mortos no Araguaia em enterrar seus ancestrais, o pôster debochava “quem procura osso é cachorro”.

Sim, o autor é o atual presidente da República. O mesmo que, quando deputado na CPI do mensalão, teve a brilhante ideia de levar ao depoimento de José Genoíno o seu torturador. Diante da crueldade atroz, a sessão foi suspensa e Genoíno não falou. Como teriam acabado o inquérito e o governo Lula sem a interferência cretina, jamais saberemos.

De lá pra cá, meu amigo, historiador amador dos nomes de família, pesquisou sobre os Bolsonaro.

Pelo lado paterno Jair Messias descende de italianos e alemães. O bisavô alemão, Carl Hintze, chegou ao Brasil ainda criança em meados da década de 1880, tendo portanto aproximadamente cinquenta anos no través da Segunda Guerra Mundial, e nada indica que tenha deixado o país no período. Ainda assim, sabe-se lá por que, o bisneto gosta de dizer que o ancestral foi soldado de Adolf Hitler. Resta agora saber se acha que o bisavô era de esquerda.

O lado italiano paterno é do Vêneto e a grafia original do nome é Bolzonaro, que deriva de um tipo específico de seta usada na besta, hibrido de arco e flecha e carabina medieval que voltou à voga no atentado que matou estudantes na escola de Suzano. A diferença da seta bolzon está na ponta em forma de parafuso, feito um rabo de porco.

Na migração para o Brasil os Bolsonaro vieram como meeiros do baronato do café em Amparo-SP, coincidentemente cidade natal do meu amigo, e então mudaram-se para Campinas – ou “região da Grande Amparo”, como prefere o historiador.

Mais tarde escalaram em Piracicaba, depois subiram para Guararapes, noroeste do estado, e enfim se estabeleceram em Xiririca, atual Eldorado Paulista, cuja maior atração é a Caverna do Diabo.

Em Xiririca ficava a fazenda Caraitá, do coronel Jaime Almeida Paiva, pai do deputado Rubens Paiva, torturado e morto pelo DOI-Codi, cujo corpo permanece desaparecido. O coronel Paiva foi prefeito pela Arena, partido da ditadura, e seu filho Rubens Paiva era deputado pelo PSB, agremiação de intelectuais progressistas contrários à ditadura e à luta armada. Na praça matriz em 1970 o guerrilheiro Carlos Lamarca baleou três ex-colegas de Exército.

Flávio Bolsonaro, filho ZeroUm e membro mais enrolado do clã nas súcias milicianas, escreveu a biografia do pai. No trecho em que fala do Jair criança em Xiririca, evidencia a raiz do ódio que cultivam.

Nos dias do verão inclemente do Vale do Ribeira, Jairzinho invejava as piscinas da fazenda Caraitá, e à tarde, na praça, caçava no lixo os palitos de picolés Kibon chupados pelos meninos ricos, na expectativa de encontrar um vale-brinde. De noite, contou o Presidente outro dia, mijava na cama e se sentia culpado.

Há cinco anos, na ocasião da inauguração do busto em homenagem a Rubens Paiva na Câmara, a besta atacou: “Teve o que mereceu, comunista desgraçado, vagabundo!” E disparou a flecha física, não em forma de rabo de porco feito a bolzon, mas numa cusparada. Bem parafusado no DNA dos Bolsonaro, o ódio do tempo de pobreza permanece na riqueza.

Hoje a família tem dezenas de lojas de móveis, eletrodomésticos e autopeças, investimentos imobiliários e fazendas de banana, setores que coincidentemente mereceram do deputado defesa de intervenção estatal, seja econômica ou contrária a políticas com presença relevante na região, como demarcações de terras indígenas, quilombolas e de preservação ambiental.

Por outro lado, o desgosto com a desigualdade social parece superado. A avó de Michelle Bolsonaro, doente e miserável, mora numa favela do entorno de Brasília e não vê a bisneta, filha caçula de Jair, há pelo menos seis anos. Provavelmente ignora que, tendo apartamento próprio no DF, o então deputado pegava auxílio moradia em dinheiro e usava para “comer gente”. E, em que pese o calor recorde do verão passado, não foi convidada para um mergulho na piscina do Alvorada, a apenas meia hora de seu barraco.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments