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Quem advogou, advogou; quem não advogou, não advoga mais

Desde 1928, data de fundação das nossas primeiras faculdades, de cada cem vagas criadas para alunos de Direito, dezesseis foram abertas só nos últimos quinze meses.

16% também é o índice de aprovação dos inscritos no último exame da Ordem dos Advogados do Brasil, que por sinal recomenda apenas 161 dos mais de 1.500 cursos que funcionam no país.

Tais restrições, no entanto, não impedem a chegada de milhares de novos advogados ao mercado de trabalho. O Brasil é vice-campeão mundial em número de advogados, com um para cada 174 habitantes.

O presidente em exercício da OAB, Luiz Viana de Queiroz, não poderia ter sido mais direto no diagnóstico, e chamou “estelionato” o que as faculdades fazem com seus alunos e famílias. Rodrigo Capelato, diretor da SEMESP, entidade paulista das mantenedoras do ensino superior, não aliviou: “Um curso tecnológico de estética e cosmético deve empregar mais que um de Direito, mas existe uma cultura do bacharelado.”

Informações mais detalhadas você encontra na matéria da repórter Angela Pinho para a Folha de ontem. E eu sigo daqui, agravando o problema.

Há alguns anos a IBM criou Jill Watson, um computador com capacidade cognitiva que, lá em 2011, já vencia concorrentes humanos no jogo Jeopardy!, tipo de Show do Milhão da TV americana.

Em 2017 Watson se tornou pai orgulhoso de Ross, o primeiro robô advogado contratado por uma grande banca nos EUA. Especializado em falências, Ross foi trabalhar no Baker & Hostetler, banca com quase mil advogados. Um dos sócios, a princípio cético sobre a capacidade do colega eletrônico, resolveu testa-lo num caso novo, para o qual estudou por dez horas. Ross chegou ao mesmo resultado, só que instantaneamente.

Ross tem uma irmã brasileira chamada Carol, robô que trabalha no Urbano Vitalino, escritório tradicional do Recife, presente em várias capitais e no exterior, que lida simultaneamente com mais de cem mil processos, e cujas tarefas repetitivas, como acompanhar publicações diárias e ajusta-las aos casos da banca, estão por conta de Carol, a filha de Watson radicada no Pernambuco.

Famílias de computadores como a de Watson vão se esparramar pelo mundo e tomar conta da advocacia. Aplicativos de mediação de processos trabalhistas já são uma realidade. Outros tantos virão. Daí o título da crônica: quem advogou, advogou; quem não advogou, não advoga mais.

Está difícil precisar prazo para o estabelecimento de novas tecnologias, e por isso convém duvidar de quem se arriscar a dizer exatamente quando vai acontecer. Mas  “se” vai acontecer já não é uma questão.

Obviamente alguns casos hão de sobreviver, como o do grande especialista criminal que defenderá um acusado de crime de sangue muito criativo. Ou o do casal bilionário que vai se separar litigiosamente. O mais, a gente ordinária, vai caminhar como sempre caminhou desde que a humanidade adotou a roda.

De novo, excentricidades existirão, como quem ainda usa caneta tinteiro, fogão à lenha e automóvel próprio. Tesão é uma questão de custo, não de razão. E também sempre haverá o estelionato citado pelo presidente da OAB, encontro charmoso de um tipo esperto com outro mais esperto ainda.

Resta saber qual será a profissão dos estudantes de Direito. E desde já nota zero para quem pensar em concurso para juiz. Ou por outra: o Supremo Tribunal Federal, apesar dos onze ministros muito famosos, tem um camisa doze ainda desconhecido.

Chama-se Victor sua décima segunda excelência, e despacha desde agosto do ano passado na Praça dos Três Poderes. É um robô e foi batizado em homenagem ao falecido ministro Victor Nunes Leal, percussor da sistematização da jurisprudência da Corte em sumula, função que seu afilhado deve continuar trabalhando 24/7, celerizando ao infinito os trabalhos jurídicos.

 
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