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Dragão tatuado no braço ou Cartucho no divã

Carlos Bolsonaro tem a cara do pai, Jair Messias, tatuada no braço. Mas até por definição esta não é a marca mais profunda na relação.

Quem tem pais separados ou já se separou sabe que o processo pode acabar bem, mas dificilmente termina livre de mágoa e sua memória nunca se apaga.

A mesma coisa pode-se dizer da adolescência, período agudo na formação da personalidade de qualquer pessoa dada a profusão de transformações e percepções – biológica, sociológica ou psicologicamente falando.

Mais raras são as pessoas que já passaram por disputas eleitorais dentro de uma campanha. Eu já passei por várias, duas como candidato, e afirmo: é duro. No final, com qualquer resultado, leva um tempo para controlar a inércia emocional.

Quem nunca esteve dentro de uma campanha, pense em como a última abalou seu ânimo e relações pessoais. E então multiplique sem receio de exagerar. Entre outros motivos, este explica por que a política é arte para gente grande.

Agora tome um menino de dezessete anos que, a pedido do pai, concorre a vereador contra a própria mãe, no âmbito do divórcio de ambos. É o caso de Carlos Bolsonaro.

Não dá para afirmar, mas considerando que ele é o filho ZeroDois, pode-se supor que o ZeroUm recusou a missão – o que aumenta o crédito emocional do filho em relação ao pai.

Tudo isso talvez possa explicar o sentimento de Carlos em relação a Jair Messias. E, pela pessoa, outra coisa diferente de compaixão ninguém há de sentir.

Do lado do pai, que tanto exigiu do filho, recebeu e é devedor, mais compaixão. Fez, está feito e, dado o amor envolvido, só posso oferecer minha solidariedade.

Ocorre que a vida privada de pai e filho diz respeito aos dois e só os dois podem resolver. Já a vida pública de um vereador do Rio de Janeiro e a do presidente da República diz respeito a todos os brasileiros, com o agravante de milhões desempregados, desalentados, desesperados. E, definitivamente, não merecem sofrer ainda mais por um problema que é privado e que não deveria consumir a popularidade do governo que tanta expectativa criou.

Para além disso é inacreditável, mesmo considerando este período surrealista, que um vereador sequestre o avatar do presidente da República – que basicamente foi o eleito – e fale ou cale em seu nome, inclusive endossando vídeo com ofensa às Forças Armadas e, contrariado, suma por alguns dias até ser descoberto num clube de tiro em Santa Catarina.

Fosse na vida privada, em família ou numa empresa, o sensato seria impedir que tais pessoas tomassem qualquer decisão. Na vida pública é inaceitável que autoridades, incluindo a autoridade máxima, proceda assim. Mas é também mais complicado. Tarefa para a política resolver. De novo: política é arte para gente grande.

 
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