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A feijoada de Guaidó

Presidente autoproclamado da Venezuela, Juan Guaidó tinha uma feijoada marcada para quarta-feira, que é dia de feijoada. Porém, o ímpeto da juventude, somado a alguns pertences e à ausência de outros fundamentais, o condenaram à sabedoria popular que reza “quem tem pressa, come cru”.

É fato que ele conseguiu a libertação de Leopoldo Lopez, sem a qual a feijoada estaria incompleta e, em caso de indigestão, ambos contam com asilo na embaixada da Espanha, fortalecido com a eleição do governo socialista.

Por outro lado, faltaram dois ingredientes básicos: militares e gente suficiente para comer.

Hoje é impossível dizer se na quarta-feira, que é dia de feijoada e coincidia com o Feriado Internacional do Trabalho, o povo teria saído para almoçar a feijoada de Guaidó e, com as ruas ocupadas, atrairia os militares.

Na melhor das hipóteses, Guaidó foi traído pela falta de experiência somada à excitação. Como de fato serviu a feijoada já na terça-feira, sem tempo sequer para a dessalga das carnes, é provável que acreditasse na deserção de parte dos militares, informação sabidamente falsa por quem mantém contato com os generais em Caracas, caso do general Mourão.

Agora a ideia é requentar e engrossar o caldo para servir no sábado. Pode funcionar. O problema é que Guaidó já pegou a pecha de não ter o dom do tempero.

Ao que tudo indica, a solução diplomática está afastada ou nunca existiu, porque Maduro é um sanguinário e sanguinários não dialogam. A solução militar também não interessa a ninguém.

Trump tem mais o que fazer e, como disse o Guga Chacra, apesar dos impressionantes indicadores econômicos, sua popularidade segue estacionada.

Putin tem gente na Venezuela aparentemente por dois motivos: guardar Maduro e a tralha militar que entregou nos últimos anos. Roberto Godoy fez um inventário para o Estadão, que além da riqueza de detalhes aponta o desfecho mais provável.

Entre os russos em solo venezuelano estão os mercenários “wag”, soldados profissionais que vão para a iniciativa privada vender caro sua capacidade de combate, inclusive para os governos. No caso russo, a empresa se chama Wagner, e tem oitenta homens, talvez duas ou três mulheres, há um ano grudados em Maduro.

No caso americano a empresa é mais conhecida. A Blackwater oferece ex-fuzileiros navais para fazer serviços que ao Estado não é permitido. Atuaram no Iraque e no Afeganistão. Seu fundador Erick Prince estaria negociando um pacote mercenário com aliados de Juan Guaidó, mas ambos negam a notícia.

No Brasil não há nada igual. O que temos mais próximo de paramilitares trabalhando por conta própria são milicianos como o ex-policial Ronnie Lessa, vizinho e ex-consogro de Jair Bolsonaro, exímio atirador acusado de matar Marielle Franco e Anderson Gomes. A Polícia Civil encontrou com ele 117 fuzis. Ou Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do BOPE suspeito de ser miliciano, e cujas mãe e mulher trabalhavam no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj e depositavam na rachadinha de Fabrício Queiroz.

Com Lessa preso e Nóbrega foragido, dificilmente o Brasil poderia colaborar com a possível batalha clandestina na Venezuela. Até porque assassinar uma vereadora e seu motorista desarmados ou cobrar o gatonet de moradores de Rio das Pedras é bem diferente de enfrentar gigantes russos, mesmo que ao lado de um Blackwater.

Uma entrada militar oficial do Brasil na Venezuela dependeria do Congresso e a ala militar do governo, bem como as Forças Armadas, que descartam a possibilidade.

A depender da nossa diplomacia, tanto pior. Mais alinhado ao celerado Nicolas Maduro não poderia estar o ChanCelerado Ernesto Araújo, a quem caberia justamente tentar o diálogo. Contudo, sua agenda recente nos Estados Unidos, conversando oficial e oficiosamente sobre assuntos de interesse nacional sem respaldo da ala militar do governo, como mostrou o furo da repórter Thais Bilenky em sua estreia na Piauí, fizeram o caldo entornar.

É claro que tudo pode acontecer quando se trata de um país em caos, com pessoas morrendo, cidades desabastecidas até água e luz, mas com a maior reserva de petróleo do mundo.

Porém a chance do Brasil ajudar na feijoada parece cada vez mais distante.

 
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