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15% dominaram o Brasil

O desencanto é geral. Desemprego, desalento, desespero. Ruralistas insatisfeitos, evangélicos contrariados, industriais em extinção, construtores sem perspectiva, caminhoneiros irritados, militares envergonhados. Sérgio Moro esculhambado, PaGue desautorizado, general Villas-Boas espancado nas redes sociais. Carla Zambelli chora.

Em seu universo paralelo e ainda sob os vapores (obrigado, Braga) do porre homérico do semestre passado, o mercado financeiro finge que vai tudo bem. Já reduziram uma dúzia de vezes a projeção do PIB mas a Bolsa segue firme perto dos cem mil pontos, o dólar se mantém estável, bancos aumentam lucros concentrados na usura sobre uma sociedade endividada.

Hoje balançou, dólar subiu a quatro reais e Bolsa caiu, mas em função da guerra comercial entre China e EUA, não pelo caótico cenário intestino. É como se para os nossos investidores o Brasil não tivesse qualquer relevância, ou fosse antes um rincão para ganhar no mole do que um país.

Academia, imprensa, intelectuais, ambientalistas, cientistas, ativistas, artistas, comunidade internacional, atônitos, procuram entender como tal cenário pode parar de pé. Incompreendida, a alegoria sequer pode ser combatida. Sem resistência, segue o desmonte.

Admito que não sei o que fazer, até porque também não consigo entender como chegamos a tal ponto. Mas sei o que não fazer.

A primeira coisa é nunca ceder para o “eu avisei”. Se o bolsonarismo é incompreensível para quem enxergou que seria assim, imagine para quem acreditou que poderia funcionar. Apelar para a razão, portanto, é tão ineficiente na teoria quanto na prática, isto é, algo como querer voltar no tempo.

A segunda é jamais abrir mão da solidariedade. Quem votou contra o PT deve estar tão mal quanto quem votou contra Bolsonaro. E foram os eleitores do contra que definiram o resultado. O fato é que a eleição passou, há um governo eleito e estamos todos sob ele. Juntos.

A terceira é em nenhuma hipótese render-se e desistir de analisar e tentar entender o que acontece. Juntando a primeira e a segunda, nunca ceder à tentação da vingança e dizer “eu avisei”, mas sempre continuar avisando e lembrando que, mesmo separados em partes discordantes, somos inseparáveis enquanto sociedade, tanto quanto o governo é uma coisa só. Defendendo ou atacando a parte, defende-se ou ataca-se o todo.

Considerando o primeiro grupo, formado pelos que acreditaram na alternativa bolsonarista, se descontarmos seu grupo original, que eu suponho ser algo em torno de 15% de gente realmente reacionária, restam 45% de eleitores que podem ser conservadores, neoliberais, militaristas, lavajatistas, antipetistas. Mas não são bolsonaristas, portanto não votaram a favor de Bolsonaro. O que teria os unido?

Meu palpite é uma estética sofisticada e muito bem trabalhada. Sem explicar a que veio, Bolsonaro simplesmente simboliza.

Ornamentado com símbolos de conveniência que serviram à comunicação de nicho, como Moro, Mourão, PaGue, Bolsonaro tornou-se viável eleitoralmente saltando de 15% a quase 60%. Problema: transformar expectativa eleitoral em realidade de governo sem apoio do Presidente. Efeito: descolamento e desidratação precoce.

Os símbolos de convicção, fiéis ao bolsonarismo original, como filhos, OakLavo, ChanCelerado Araújo, Damares Alves, Abraham Weintraub, Ricardo Salles, tornam-se cada vez mais enraizados. Problema: terão apoio da base reacionária, do Presidente e seguirão operando. Efeito: desmonte.

Arma predileta de Bolsonaro, seu Twitter mostra que sua base virtual é alegórica como a da maioria dos políticos. No caso dele, 60% são contas inativas, 59% não falam português, 84% seguem e 87% são seguidos por quase ninguém, 69% são localizados em lugar nenhum, indicio de atividade bot. O que ele tem de força é um engajamento alto, apontando para a existência de um público diminuto, denso, fiel e combativo. Meu palpite é que sejam os mesmos daquele estrato de 15% reacionários.

A escolha de Bolsonaro é clara. Governará para os 15% de reacionários. Assim, quem esperava que ele trocaria sua base por reformas econômicas ou pacote anticorrupção, errou. Agora defender Paulo Guedes é fortalecer Damares Alves. Atacar Ernesto Araújo é enfraquecer Sergio Moro.

Repito que não sei o que fazer. Mas pergunto: o Brasil seguirá entregue a esses 15%? Por quanto resistirá assim?

 
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