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Quem trabalha de graça é a mãe

O capitalismo tem uma regra: não existe almoço grátis. Não falha. Se por acaso acontece um almoço que parece grátis, convém investigar para saber quem está pagando. Sempre tem. Não falha.

Anteontem, no segundo domingo de maio, rolou um almoço internacional em homenagem às mães. Uma beleza. Todo mundo postando retrato. Realmente comovente.

Mas com o perdão da indelicadeza, e esta freguesia há de reconhecer que respeitei a boa digestão, proponho que a gente pare para pensar em quem está pagando a conta da maternidade.

Já foi pior, mas a verdade é que o trabalho doméstico ainda fica por conta da mulher. São elas que cuidam das crianças, dos velhos, dos doentes, das pessoas com deficiência. Também são elas que tratam de cama, mesa e banho. Mas não recebem pelo serviço.

Se não recebem, parece almoço grátis. Porém, como almoço grátis não existe, quem está pagando a conta?

Ora, é a economia, estúpido. No capitalismo, quem trabalha gera valor. Se este valor não é reconhecido, o capitalismo sofre. E quanto mais longo o caminho que o valor faz até encontrar o preço, mais caro fica.

O primeiro efeito da mãe trabalhar de graça é econômico. Sem ter seu valor reconhecido, a mulher não consegue reconhecer o valor do trabalho de outra mulher. Numa sociedade pobre como a brasileira, ocorre que outras mulheres são contratadas para fazer o trabalho doméstico pelo preço mais baixo possível.

O efeito social vem grudado. É possível ser pai de duas famílias. E impossível ser mãe de duas famílias. A moral praticamente extinguiu a primeira prática, mas ainda tolera a segunda com naturalidade. Preferimos ignorar o fato de que quando uma mãe se divide entre duas famílias, uma ou ambas serão prejudicadas pela falta de atenção, de laços, de respeito. E não há sociedade que pare de pé assim.

Aqui chegamos diante de quem acaba pagando a conta do trabalho doméstico não remunerado: a economia e a sociedade. Custa muito caro a todos nós manter esse modelo, que de grátis, como todo almoço capitalista, só tem a aparência.

E em respeito aos princípios capitalistas, é preciso rever o modelo. Ora, há concordância sobre o Estado gastar dinheiro para manter equilibrados recursos monetários, por que não haveria de investir para equilibrar recursos humanos?

Aos liberais radicais cabe a mesma pergunta. Como pode ser equilibrado um mercado onde alguém trabalha sem remuneração?

Para encerrar, se quem vai fazer o trabalho do lar é mulher ou homem, para mim é indiferente. Assim como não interessa se é casal, trisal, família monoparental. O importante é que, uma vez decidido que haverá um lar, alguém deve se dedicar a ele e ser remunerado por isso, porque é justo e convém a todos nós. O mínimo equilíbrio econômico e social dependem disso.

O melhor presente de dia das mães seria a Renda Básica Universal. Tenho convicção de que, uma vez adotada, o dia das mães seria mais contente ano após ano, principalmente para a principal interessada, que é a rede varejista.

 
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