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Agenda de um grande dia

São Paulo, 15 de Maio de 2019. Fui pra rua no fim da tarde. Já na esquina com a José Maria Lisboa, encontrei a Brigadeiro fechada pela PM, que acompanhava a manifestação a favor da Educação. De lá até a escola só andei sobre o asfalto e com dificuldade para avançar no contra-fluxo do tsunami.

Alguns pontos dignos de nota:

Estive em diversas manifestações nos últimos anos, sem jamais aceitar convite para subir em trio elétrico. Só tirei os pés do chão uma vez, no caixote do Boca no Trombone, para rogar pela renúncia de Dilma. Até hoje creio que seria o melhor pacto, seguido pela cassação da chapa Dilma-Temer, cujo processo terminou em vexame no TSE.

Quem, como eu, foi à Paulista nos anos anteriores e porventura levou cartaz, se guardou e voltou ontem deve ter reutilizado. A maioria das mensagens eram semelhantes. E os malucos presentes, também minoritários.

O volume de gente era impressionante, mas é difícil comparar com os outros anos, quando as manifestações costumavam ser estáticas, com os trios elétricos atravessados na avenida. E ontem foi uma passeata, com os grupos seguindo caminhões ou bandas afins.

Talvez data e horário contem como diferença. Se MPL e Contra Copa começavam no fim do expediente, e os Fora Dilma aos domingos, ontem começou com convocação de greve e encontro programado para as 14h00, combinando com o horário da fala do ministro na Câmara Federal.

Outra diferença é a pauta definida e o renascimento da militância política. O Passe Livre de 2013 se transformou em Não Vai Ter Copa e então se dispersou contra tudo. Partidos políticos eram expelidos como corpos estranhos. Ontem as bandeiras estavam lá, cada qual na sua, em harmonia geral.

Harmonia esta que se repetiu na Câmara desde a convocação do ministro aprovada quase que por unanimidade. Só PSL e pNovo votaram contra.

Durante a sessão, absolutamente nenhum partido defendeu o contingenciamento. Houve grosseria entre os parlamentares e em relação ao ministro, que por sua vez adotou já na largada a tática do ataque como melhor defesa, mesma linha do presidente da República que, dos EUA, chamou de “idiotas úteis” os manifestantes pela Educação.

Com preferência por divergentes ideológicos, por várias vezes o ministro passou do limite atacando o Parlamento e a Política de forma genérica. O último que fez isso acabou demitido a pedido do então chefe do Centrão. Aliás, DEM, PP e PROS bateram firme no governo.

Ontem não vi pedido de selfie com a PM. Mas a recíproca era diferente. Descontando a tensão natural de acompanhar uma multidão aborrecida, havia entre os policiais um ar de solidariedade indignada. Curioso porém previsível, afinal, quem pode ser contra a Educação?

Meu palpite é que a coisa cresce, seja pelo ânimo das estreias retumbantes, seja pela energia que Bolsonaro empresta com sua autocombustão.

De noite, no intervalo da aula, o céu estava claro e a lua, linda. Para meu gozo íntimo, o frio chegou. Mas é triste saber que vem se somar ao jugo da carestia, do desemprego, do desalento, do desespero que se vê nas ruas. O governo atual não pode nem deve ser responsabilizado pelo conjunto da obra, e sim pelo que não faz para remediar e até para piorar.

Clara como a noite fria vai ficando a agenda Bolsonaro (antecipei aqui). É o autogolpe de Jânio em 1961, com tuitadas no lugar de bilhetes amarelos. Todos os elementos para a analogia estão presentes: ataques à imprensa, universidades, Congresso, Justiça, Política; desmoralização e incentivo à conflagração de aliados sensatos; diversionismo de biquíni ou princesa gay, lança-perfume ou maconha; bicho-papão soviético ou venezuelano; linha sucessória com sérias fragilidades e até o “forças ocultas” já está no twitter do Cartucho.

Foi um grande dia. Mas hoje eu acordei apavorado.

 
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