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Moro, Marielle e o 13 de Maio no Rio

Na segunda-feira 13 de Maio o ministro Sérgio Moro foi ao Rio para a celebração dos 210 anos da Polícia Militar fluminense, ao qual se somou o I Simpósio Nacional sobre Vitimização Policial.

Como é sabido, o 13 de Maio de 2019 também marcou os 131 da assinatura da Lei Áurea. A data, escolhida pela Princesa Isabel, é uma homenagem ao aniversário de seu pai, Pedro II, que pela convicção abolicionista enfrentou o risco de colocar o trono em xeque. No ano seguinte o Império seria substituído pela República.

Hoje os ativistas negros preferem celebrar a liberdade no 20 de Novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares. É compreensível. Para além da liberdade, Zumbi lutou por um pedaço de chão para seguir em frente, o Quilombo dos Palmares. Vale perguntar se Isabel do Brasil teria condições de assinar a carta com o mesmo espírito, garantindo terra para os escravos libertos. Qual seria o risco de botar tudo a perder depois de quarenta anos de avanços difíceis? O lugar para o debate é a Faculdade Zumbi dos Palmares – FAZP.

Voltando ao presente, foi no mínimo deselegância do ministro Moro, estando no Rio, no 13 de Maio, celebrando o aniversário da PM e debatendo vitimização policial, não citar Marielle Franco.

Primeiro porque Marielle, assassinada no Rio, cumpria mandato conferido pelos cariocas. Depois porque era negra. E ainda porque trabalhava firme em políticas públicas de proteção social a famílias de policiais mortos ou feridos em serviço ou em consequência dele.

No 14 de maio Moro deu entrevista à Globo News e falou sobre o decreto armamentista de Bolsonaro e os índices de violência, que em quantidade vêm caindo há um ano e acentuadamente nos últimos meses. O ministro da Justiça e da Segurança teve a decência de não faturar sobre os números. Mas não resistiu à frieza das estatísticas.

Explico: se é verdade que em quantidade o sangue da violência vem jorrando com menor intensidade, e ninguém sério se arrisca a cravar uma causa, seria prudente considerar a qualidade da violência que vem acontecendo de alguns meses para cá.

Em Angra dos Reis o governador Witzel, que estava ao lado de Moro no 13 de Maio, embarcou num helicóptero da Polícia Civil e transmitiu a chuva de chumbo que promoveu nas favelas da cidade. Uma tenda de orações de evangélicos virou peneira. No dia seguinte, na Maré, a nave sombria voltaria a atacar no horário de saída da escola, botando crianças para correr.

Em Guadalupe o Exército metralhou o músico Evaldo Rosa e o catador Luciano Macedo com mais de 200 tiros, sendo que só o comandante da operação, tenente Ítalo Romualdo, disparou 77 vezes.

Em Inhaúma a Polícia Militar matou o professor Jean Aldrovande, que acompanhado do filho de 17 anos chegava ao Alemão para dar aulas de jiu-jitsu para a garotada local. Jean Samurai, como era conhecido, disputaria o campeonato brasileiro neste 25/6.

Os favelados de Angra, as crianças da Maré, Evaldo, Luciano e Jean têm algo em comum, que podemos chamar de UPP: unidade em pele preta e periferia.

Na madrugada desta sexta 17 Dona Márcia Beatriz Lins Izidro, ex-secretária de Estado de Esporte e Lazer e chefe de gabinete do TCM carioca, desrespeitou uma barreira da PM em Botafogo, e os policiais tiveram a delicadeza de perseguir seu carro até o Jardim Botânico. Em cinco quilômetros, apesar da provável alta velocidade, ninguém se feriu. Ah, Botafogo é central e Dona Márcia, branca.

Meus parabéns à guarnição botafoguense pela prudência. Que sirva de exemplo para todo o Rio e, de lá, para o Brasil.

 
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