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Ninguém pode ser estrangeiro sozinho

Crônica publicada na #30 edição da revista Amarello, que está nas bancas

Ninguém pode ser estrangeiro sozinho. Mesmo com esforço, alguém disposto a viajar dez mil milhas, escalar oito quilômetros ou mergulhar trinta mil pés, só será estrangeiro se encontrar um semelhante no destino.

Na ausência do próximo, podemos ser exploradores, desbravadores, pioneiros, aventureiros. Nunca estrangeiros. Dada esta condição, com o perdão da redundância, o ser estrangeiro é antes um pré-conceito do que um conceito.

De modo geral o homem comum vai com gosto conhecer o estrangeiro. Se prepara para olhar com bons olhos, experimentar novas experiências, entender culturas diversas. Há exceções, como a guerra e as colonizações, mas estas vamos deixar de lado tanto quanto possível.

O inverso, que é quando o estrangeiro vem nos visitar, divide mais os sentimentos. São corriqueiros os rankings dos povos mais simpáticos a receber visitas. Considerando só os sentimentos espontâneos, sem outro motivo que não o das relações pessoais, costumam encabeçar as listas comunidades já habituadas às diferenças, como as cidades grandes e as nações miscigenadas.

Um fenômeno interessante acontece com nações que enfrentaram a diáspora. Quando se encontram, e principalmente se se organizam em colônias estrangeiras, descobrem e exercitam através de gerações uma solidariedade que não havia no lugar de origem, tratando com ainda mais zelo uns dos outros e fazendo prevalecer a cultura comum sobre qualquer diferença acessória.

Igual a tudo na vida, a dose conta pontos. Ao longo da história, cidades que prosperaram transando cultura e mercadorias com estrangeiros enfrentaram problemas quando a pluralidade deixou de ser uma característica para se transformar na própria identidade. Soluções como o de Nova York, capital do mundo, ou Paris, com o cidadão típico misturado a forasteiros, são raríssimas.

No plano doméstico não é diferente. Vizinhos dispostos à solidariedade incondicional são os mesmos capazes de cometer crime de sangue em caso de desentendimento. A hospitalidade contente tem prazo até para a visita mais querida. O vulgar costuma comparar os hóspedes aos peixes, que depois de algum tempo fora do lugar começam a incomodar. Nos ambientes de trabalho compartilhados, cada vez mais comuns nas últimas décadas, vemos colegas afinados, separados por poucos metros, preferindo conversar por meios inventados para encurtar grandes distâncias.

Este último exemplo talvez nos ajude a pensar na humanidade atual. Nos comovemos com a ocorrência da dor humana do lado de lá do globo com a mesma naturalidade com a qual nos acostumamos com a caatinga da miséria debaixo de nossos narizes. Deve ser algo do nosso instinto de sobrevivência.

A pergunta que proponho parte daqui: se a condição de estrangeiro depende de nós, somos todos estrangeiros ou ninguém é. Assim, seremos capazes de um entendimento universal?

 
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