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140 dias de estética

Hoje o governo Bolsonaro completa 140 dias. O número é emblemático. 140 é o limite de toques permitidos num tuíte, meio preferencial da comunicação direta adotada pelo bolsonarismo.

A força estética que o limite carrega não pode ser desconsiderada. A influencia na linguagem atual é evidente. Abreviações, pontuação, esforço de concisão, ansiedade, superficialidade são alguns dos efeitos. Não por acaso, os discursos do presidente, curtos e truncados, se parecem com tuítes narrados.

A data também é emblemática porque é a segunda-feira de uma semana problemática. Aperta a contagem regressiva para o 3/6, data de validade de MPs diversas fundamentais para o governo, principalmente a administrativa, e em calendário legislativo equivale a menos de uma semana.

A “Nova Previdência”, namoradinha da imprensa e último fio a sustentar o humor do mercado, também clama por um avanço. O Decreto de Armas, aceno para o eleitorado reacionário de base do presidente está diretamente relacionado com o chamado para manifestações de apoio ao governo, cuja pauta, entre outros itens, inclui o pacote de Sérgio Moro, que está desconfortável com a amplitude armamentista, assim como lideranças da bancada da bala.

Única explicação possível para tanta loucura em tão pouco tempo é a estética. Com a sociedade divorciada da razão, negando fatos e defendendo pós-verdades, afogada no tsunami dos tempos líquidos detectados por Zygmunt Bauman, parece que o governo sabe que a única forma de comunicação é a estética da confusão.

A referência histórica que oferece a melhor analogia é Jânio Quadros. O louco que tentou um autogolpe em 1961 e se deu mal, mas a gente se deu pior. Falei a respeito aqui observando a sofisticação estética dos cem dias, repeti na semana passada e, por tão evidente, já aparece em outras analises, de Bernardo Melo Franco a Tabata Amaral, passando por Celso Rocha de Barros e até a charge do Amarildo.

Jânio usou e abusou da estética em sua construção populista e na preparação do autogolpe. Nos salões do café-soçaite aparecia elegantíssimo e refinado; encontrando populares trocava o paletó bem cortado por um desgrenhado e com caspa artificial. Atacava todas as instituições brandindo uma vassoura, como se só ele pudesse varrer os males nacionais.

Bolsonaro surge nos Estados Unidos num belo terno azul-marinho, com as cores brasileiras delicadamente acompanhando a casa de botão na lapela, chique como nunca vi qualquer governante aqui ou alhures. Atrás dele, o onipresente Hélio Negão, numa gritante camiseta rosa. Sinais trocados como os passos de Jânio para quem despacha com ministros calçando chinelos e coleciona declarações racistas e homofóbicas, e cuja equipe já imortalizou o “menino veste azul, menina veste rosa.”

De volta ao Brasil, vai à cancela do Alvorada cumprimentar crianças vestindo roupas do domingueiro ordinário. Publica vídeo de pastor africano repetindo o que ele, Bolsonaro, sempre diz, que é um missionário a serviço de Deus. Faz circular carta em que fala de “forças ocultas”. Convoca seus seguidores para enfrentar STF e Congresso na Praça do Três Poderes

Repito que me sinto apavorado. É muita irresponsabilidade. Esta fogueira só interessa às aves de rapina. Para carcará, incêndio no mato é churrasco.

 
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1 Comment  comments 

Uma resposta

  1. Daniele

    Tempos Sombrios.Arbitrariedade latente e como você bem explanou a multidão continua com o hábito do Servilismo.