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Antes a derrota com André Lara Resende do que a vitória com Marcos Lisboa

Mea-culpa. Compartilhei nas minhas redes um vídeo com um trecho da palestra em que o André Lara Resende decreta o fim da macroeconomia no Insper. Isso foi ontem. Hoje fui assistir à íntegra, que conta com debate, e logo no início entra o ex-presidente do BC Fernão Bracher, falecido em no último fevereiro. Logo, o vídeo é antigo, mais precisamente de junho de 2017, quando do lançamento de uma seleta de artigos do ALR em livro.

Mea-culpa porque venho me impressionando com a não repercussão do que o ALR vem escrevendo no Valor Econômico e, diante da realidade das datas e do acesso fácil pela internet ao debate que ele propõe, fico condenado à indigestão causada pelas sucessivas bolas que comi.

ALR diz que a Economia se rendeu ao formalismo a ponto de preferir um modelo elegante à realidade: “Se os modelos são elegantes mas irrealistas, dane-se a realidade.” Assim pensam os economistas hoje em dia.

Meu palpite é que a raiz do problema é a noção de que ciências são exclusivamente as matérias que podem ser comprovadas, tornando irresistível aos economistas acadêmicos formalizar sua matéria em busca de reconhecimento. Funcionou por um tempo, ainda funciona em microeconomia, mas a overdose em macroeconomia transformou o remédio em veneno e matou a matéria.

Filosofia, por exemplo, sofre até hoje com a acusação de não ser ciência, ou ser no máximo ser ciência humana, termo que inacreditavelmente tornou-se pejorativo, notadamente na boca da turma das chamadas “exatas”. Tudo porque, inseparável da realidade, a Filosofia muda, o que para mim explica sua longevidade. Ou alguma outra matéria conta 2.500 anos?

Em outro exemplo mais específico, a Filosofia Política é acusada de não ter conseguido, como a Matemática, chegar a modelos formalmente perfeitos. Reconheço. Mas a Matemática é uma Língua, perfeita, e o uso que se faz dela pode desvirtuar a realidade, como vem acontecendo na macroeconomia.

Por outra, tomando a proposta do Aristóteles para as formas de governo, pode-se dizer que, bem ou mal, e muito mais bem do que mal quando misturada, vigora até hoje e é a base para o Estado moderno. A repartição dos poderes em três, Executivo, Judiciário e Legislativo é a soma equilibrada e adaptada das formas de governo do Ari, monarquia (poder de um), aristocracia (poder de poucos) e políteia – que é o nome da democracia (poder de muitos) em sua melhor forma.

Num terceiro exemplo, o Direito, também muito mais longevo do que a Economia, sobrevive pela capacidade de se adaptar à realidade. É a resiliência da matéria que manda, no caso de clivagem entre o Direito e a Justiça, o aluno preferir a Justiça, que a mantém viva e vigorosa.

Fugi da escola mas tomei algumas aulas com meu tio-avô Franco Montoro, autor do clássico Introdução à Ciência do Direito. Primeira lição: a lei proíbe a entrada de cães em um determinado local. Chega um cego com um cão-guia. Dane-se a lei. Então entra uma pessoa acompanhada de um urso, cuja entrada, a rigor, não está proibida. De novo, dane-se o rigor da lei. E viva a realidade.

A grande mensagem do ALR é uma provocação para que a Economia volte a ser ciência humana e abarque a realidade. Fica claro quando ele recomenda a quem pensa em estudar macroeconomia, que opte por estudar teoria comportamental e matemática aplicada. Ora, Economia não é outra coisa se não o encontro de comportamento e matemática.

A quem precisa de comprovação histórica convém lembrar que ALR é um dos criadores do Plano Real, melhor coisa que já aconteceu na Economia brasileira. E o que é o Plano Real? A soma de um tripé macroeconômico à cabeça de um sociólogo que entendeu a parte comportamental da inflação e aplicou o remédio certo, chamado URV, ou unidade real de valor, para ajustar o comportamento social ao valor real dos produtos e serviços enquanto a moeda, o cruzeiro, galopava ao infinito inflacionário – provando, de quebra, a tese do ALR sobre a não importância da moeda para a realidade inflacionária.

Ah, naquele 2017 o prêmio Nobel de Economia sairia para o Richard Thaler, pela união de Economia e Psicologia.

O mais estranho, contudo, mas que me alivia da culpa de falar a respeito com anos de atraso, é ver que o Marcos Lisboa, presidente do Insper, que participou do debate e que discorda do ALR, e que bom que discorda, leva a discordância ao extremo, aplicando os tais modelos elegantes da matemática fria a outros temas que são eminentemente humanos, o que é uma pena.

De uma página no facebook chamada “Todo dia um vídeo diferente do Marcos Lisboa para deixar você em choque” o algoritmo me mostrou um vídeo onde o economista exibia gráficos muito bem feitos relacionando investimento e produtividade na Educação brasileira. Ora, como pode alguém ser frio a ponto de tomar o resultado em Educação contrapondo só o dinheiro que é posto na escola com as notas dos estudantes, desconsiderando a realidade da qualidade de vida, histórico familiar e outros tantos fatores determinantes para o aprendizado?

Estou com ALR mas sei que politicamente estamos derrotados. A maioria pensa exatamente como o Marcos Lisboa. Em Saúde, que é a maior preocupação dos brasileiros, não conseguem distinguir tratamento médico-hospitalar de alimentação, sono, lazer, saneamento-básico, poluições. Para estes, tudo é moeda e tem a temperatura do metal duro.

Que saudades do Nelson Rodrigues, amigo dileto do Otto Lara Resende, pai do André. Profético, nas mesas-redondas sobre futebol ele dizia: “O videoteipe é burro.”

 
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