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Santo Padre não é santinho

Noves fora o furor intestino que nos faz odiar, e considerando que o ódio cega, da perspectiva racional são incompreensíveis as reações negativas ante a carta enviada pelo papa Francisco ao ex-presidente Lula.

Se você, freguesa, é cá da minha paróquia, provavelmente casou-se na Igreja, frequenta Cabala e tem Buda enfeitando o pichiche sob relicário de Iemanjá. Assim, fez catecismo, teoricamente conhece o cristianismo e não poderia esperar algo diferente vindo do papa. Ou, no máximo, que se Lula estivesse preso em Roma, não em Curitiba, que invés de escrever Francisco usasse as mãos para lavar os pés de Lula, exatamente como costuma fazer com outros presidiários diversos.

Do ponto de vista político, um chefe de Estado do Vaticano, se provocado, escrever para um ex-chefe de Estado do Brasil – maior Nação católica no mundo –, preso ou não, também não deveria surpreender. Mesmo o Temer, com supostas relações com o tinhoso, se pedir recebe a sua, aposto. Até porque a mensagem fica nos planos pessoal ou universal, fala de solidariedade com quem sofreu duras provas de vida – isto é, a perda de entes queridos, incluindo um neto de apenas sete anos –, ou de temas essenciais à humanidade, como política e Justiça.

A vontade original do PT era uma carta papal que pudesse ser usada como santinho nas eleições de 2018. O ex-chanceler Celso Amorim esteve com o papa em agosto daquele ano, portanto véspera dos registros eleitorais, e aparentemente tentou, mas só conseguiu um manuscrito não oficial com uma benção – que autoridade católica não nega a ninguém – e um pedido de orações.

Francisco é o melhor político em atividade no mundo e fez a coisa certa. Afastou-se do plano eleitoral e esperou a Páscoa para se manifestar como chefe de Estado. Ponto para ele.

A mensagem do papa que importa ao Brasil é o encontro com o cacique Raoni, que esteve em périplo europeu falando sobre o clima e sua floresta natal, onde a Igreja Católica vai realizar o Sínodo da Amazônia em outubro.

De novo, ao contrário de outros chefes de Estado, o papa só recebeu o cacique no dia seguinte às eleições para o Parlamento Europeu, que teve forte campanha para os partidos verdes, alcançando bom resultado. Calculado ou não, excesso de zelo com um tema universal ou não, fez diferente. Santo Padre não é santinho.

Lá na Europa, o que ainda se entende por esquerda ou direita é bem diferente do Brasil. A direita na França, por exemplo, defende o Meio Ambiente e se alia ao socialista americano Bernie Sanders contra os capitais voláteis. No Brasil, a direita aplaude liberação de defensivos agrícolas proibidos em todo canto (ganhou), luta pelo desmonte do Código Florestal (perdeu), quer privatizar companhias de água e saneamento (tende a perder), que a Inglaterra, berço liberal, está reestatizando.

E palmas para o físico e astrônomo brasileiro Marcelo Gleiser, que tirou o Prêmio Templeton 2019, considerado o Nobel da espiritualidade. Na solenidade de premiação, disse o seguinte: “Mantenho a mente aberta para surpresas. Depende do que você chama de Deus. Tem gente que diz que é a natureza. Então, se Deus é a natureza, eu sou uma pessoa religiosa.” Viva a razão, coração de mãe onde cabe todo mundo, basta querer.

 

 
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