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Brasil e China

Perguntado se bebia, o chinês respondeu: só profissionalmente.

A piada é do diplomata Marcos Caramuru, ex-cônsul-geral do Brasil em Xangai, onde ainda vive e presta consultoria. Em passagem pelo Brasil, falou ao Roberto D’Ávila na Globo News.

Somos diferentes dos chineses, mas o humor é universal e, lá como cá, o melhor contém um fundo de verdade.

Ocorre que para o chinês ainda vale o fio do bigode. Advogados e contratos para eles são coisas marginais numa relação comercial, mera burocracia. Bem diferente daqui, onde tudo começa com o contrato, que a turma assina e então não cumpre.

Então como fazem os chineses para estabelecer confiança mutua? Bebem. Pega bem tomar um pileque e se mostrar completamente despido de pose antes de avançar em qualquer negócio. In vino veritas. E nós, que somos cultura latina, desperdiçamos a lição.

Outra coisa curiosa é o apreço pelo equilíbrio. As partes sempre vão procurar a harmonia. Se durante o percurso houver desequilíbrio, é comum que a parte que está levando vantagem procure a prejudicada e proponha um ajuste.

Para o homem cordial aqui dos trópicos pode parecer tão estranho quanto comer gafanhoto frito. Mas assim vivem e prosperam os chineses.

Em algumas das nossas semelhanças, o Brasil leva vantagem sobre a China. País continental somos ambos, mas clima bom e terra agricultável somos mais. Também somos miscigenados de maneira mais plural. A capacidade de esquecimento – no sentido de superação, de olhar pra frente, não por amnésia alcoólica –, que custou revoluções culturais por lá, aqui parece ser inata e funcionar como um relógio (Salve, Ivan Lessa).

Se eles são bons falsificadores, dizem que o revólver Smith & Wesson feito em Campina Grande era melhor que o original. A piada é que a sofisticação era tamanha que um dia alguém pediu troco para uma nota de noventa dólares e saiu com três de trinta. Aqui sufocaram. Lá deixaram rolar e hoje eles combinam acordos de desenvolvimento tecnológico conjunto com o mundo inteiro. Meu dilema é saber quem está certo.

Mas deixa pra lá. Hoje é sexta. Só queria dizer do meu receio: nossa decadência começou quando trocamos o fim de tarde no boteco pela academia de ginástica.

 
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