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Um evangélico no STF?

Recentemente voltei à escola e aprendi umas coisas. Por exemplo: um Estado laico não está necessariamente apartado de religião. O que define a laicidade do Estado é a garantia de liberdade e manifestação para toda e qualquer fé.

Daí que o dinheiro mais famoso e cobiçado do mundo poder vir impresso com um “em Deus a gente confia”, sem levar qualquer ateu ao voto de pobreza. Ok, talvez não seja o melhor exemplo, porque tem deus pra todo gosto e nenhum recusa dólar. Então melhor dizendo, o STF pode conviver em harmonia com um crucifixo e dois ministros judeus. O que não pode é o ministro judeu decidir monocraticamente pela circuncisão obrigatória no SUS.

Sei que parece papo de louco para quem vive em ambiente secularizado, onde é corriqueiro encontrar rabino em feijoada, jovens senhoras católicas conversando naturalmente sobre técnicas de sexo oral mas ruborizando se o assunto é petit-gateau, deputado evangélico em roda de enologia fumando charuto. Mas é o assunto do dia no Brasil.

Tudo porque o presidente da República, falando mais que a boca para dispersar notícias graves numa semana difícil – pibinho, irmão miliciano da sogra preso, filho ZeroUm e Queiroz sem conseguir escapar da Justiça – disse que talvez seja chegada a hora do STF ter um ministro evangélico.

Ora, as igrejas evangélicas se firmaram no Brasil do século XX com o discurso de que as minorias deveriam ser respeitadas. Amém. E mantiveram-se afastadas da política até o final da ditadura militar. “Crente não fala de política.” Não falavam.

Na Constituinte, ante a previsão de grande influência católica, resolveram se coçar. Logo em seguida veio a negociação de mais um ano para o Sarney, e o ACM, então ministro das Comunicações, entrou de sola trocando voto por concessões de rádio e TV. Foi o milagre da multiplicação de denominações. Oremos a Painho. Se Toninho é Ternura ou Malvadeza, tenham liberdade para dizer.

Com efeito, de eleição em eleição, na composição do Congresso Nacional que saiu das urnas em 2018, os evangélicos deixaram de ser minoria. Hoje a bancada evangélica na Câmara conta com 120 membros contra aproximadamente oitenta da bancada católica. “Contra” não é a palavra exata, porque, juntas, as bancadas formam a frente cristã.

Em números quantitativos, na sociedade os evangélicos ainda não são maioria. Mas qualitativamente falando, se compararmos o engajamento da maioria católica com o dos evangélicos, isto é, quem é de fato praticante, envolvido com a igreja e sua comunidade, provavelmente os evangélicos já são maioria.

Na eleição de 2018, 68% dos evangélicos escolheram Bolsonaro contra 50% dos que se declaram católicos.

Juntando os três parágrafos anteriores esta paróquia poderá apostar que a vontade do ministro PaGue emagrecer o Censo 2020 não alcançará a verificação da fé nacional.

Outra coisa que aprendi na escola, quando os cursos de Filosofia e Teologia se encontram em classe, foi da multiplicidade das igrejas pentecostais, que se de fora parecem um conjunto, por dentro são divididas em muitas partes que disputam poder entre si.

Daí que a declaração prematura de Jair Messias sobre um ministro evangélico no STF deve ser lida primeiro como diversionismo geral e apelo à base muscular numa semana especialmente difícil.

E num distante segundo plano como um “o gato subiu no telhado” para Sérgio Moro e pré-aquecimento da cadeira para o ministro do Tribunal Superior do Trabalho Ives Gandra Martins Filho, cuja irmã Angela é secretária da Família de Damares “Cinira” Alves, enquanto o pai declara que Olavo de Carvalho “é o professor de todos nós”. Membro da Opus Dei, prelazia católica ultraconservadora, a família agrada aos evangélicos em bloco sem desagradar à CNBB. E a sociedade que aguente o silício.

 
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