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O mercado no pico do Everest

Se formar fila no quilo, em porta de boate ou para desembarcar de avião ainda com as portas fechadas já perece estúpido, no pico do Everest, com pouco oxigênio, frio de matar e cadáveres ao pé para deixar claro que não é força de expressão, passa a ser incompreensível mesmo considerando a dificuldade de raciocínio em tais condições.

Entendo que a vontade de um feito distintivo afete o espírito humano a ponto de colocar a própria vida em risco. Não pretendo pular de paraquedas, pegar garupa no globo da morte nem confiar juba de leão. Mas vá lá, estando logo ali, o sujeito faz, registra, goza e bota no insta – ou bota no insta e goza? Quem nunca? No máximo digo que jamais pegaria fila para qualquer coisa assim.

Fila só para o que é imprescindível, como pronto-socorro, ver a Mona Lisa ou votar contra o Bolsonaro. No Everest é muita estupidez.

Por outro lado, ou numa analogia com a vida da perspectiva da planície, não é difícil encontrar casos semelhantes. Tome-se por exemplo o caso da Faria Lima, cume financeiro do Brasil ali na várzea do rio Pinheiros.

O país congelando, cadáveres da carestia se amontoando, 14º boletim de mau tempo consecutivo para projeção de crescimento e a turma do mercado segue apostando no trilhão do PaGue, exatamente como os imbecis na fila do Everest.

Dizer que eles não sabem o que fazem é falso. Em janeiro 86% apostavam no êxito de Bolsonaro. Hoje são apenas 14%. Mas o dólar volta para baixo de quatro reais e a Bolsa segue perto dos cem mil pontos. Com o que estão brincando?

Com a reforma da Previdência não é. Esta já passou. Coisa boa na segunda-feira é aproveitar o tédio de quem espera os voos para Brasília e prosear pelo WhatsApp. Todos garantem que está tudo certo e agora é questão de prazo e algum ajuste, a começar pelo pedido da primeira dama e, no máximo, incluir ou excluir os estados – coisa de 100 bi ou os 10% do garçom.

O trilhão sempre foi imaginário, volúpia do Beato Salú. Em Brasília, algo pouco acima da metade disso é satisfatório e dado como garantido. Tanto é que o assunto já mudou. Missão cumprida, agora tratam da reforma eleitoral para 2020 (volto a falar dela amanhã).

Os grandes do mercado já sabem disso e começam a mudar de assunto. Note como daqui pra frente os artigos e entrevistas abordarão a necessidade de outras reformas caras ao jogo financeiro, como tributária e fiscal, antes do investimento prometido a partir da Previdência.

Mas os médios e menores investidores continuam olhando para o trilhão do PaGue como se fosse o pico do Everest. Todo mundo comprado, acreditando no sonho grande de pisar no topo.

Enquanto isso, a situação no pé da serra, ou na economia real, que nem sabe onde o Everest fica, segue dramática. Minha Casa, Minha Vida, Funrural e outros programas sob ameaça de avalanbche, e o despudor é tamanho que nem Bolsa Família escapa. Emprego, Educação, Saúde, sem esperança nem plano.

Como fomos nos meter nessa fria?

 
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