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Previdência dada como certa, começa a reforma eleitoral

Havia uma goiabeira no jardim da nossa casa em Juquehy. Talvez ainda exista, mas a casa foi vendida. Dava goiaba de polpa branca, cor de paz, inocência e pureza, e talvez por isso Jesus nunca apareceu por lá. Preocupado que era em confortar as almas dos fariseus, prostitutas, ladrões e pecadores em geral, deve preferir as polpas vermelhas.

O caso é que a safra da nossa goiabeira era bienal. Não me lembro se par ou ímpar, mas lembro que dava goiaba ano sim, ano não.

A mesma coisa acontece com a regra eleitoral no Brasil. Disfarçado com o nome de reforma Política, porque pega bem junto à sociedade propor mudança num modelo de representação insatisfatório, ano sim, ano não, suas excelências metem um puxadinho nas regras. Reforma pra valer, que seria a primeira de todas, picas.

Como a gente tem eleições nos anos pares, e qualquer mudança deve ser feita pelo menos um anos antes da largada da corrida, os anos ímpares são reservados para o puxadinho eleitoral.

Tida como certa a reforma da Previdência, só faltando ajustar aqui e ali, a pauta agora é a eleição de 2020 nos municípios.

Bolsonaro, que com os filhos e aliados não perde uma eleição há décadas, tratou de jogar para seu eleitorado levando ao Congresso um pacote para aumentar o limite de pontos na carteira de habilitação de maus motoristas / gente de bem. Acelera!

E os deputados e senadores, de olho em fazer prefeitos e vereadores, passaram a debater mudanças neste sentido.

No puxadinho de 2017, feito sob pressão da sociedade, entre outras coisas avançamos com a proibição das coligações proporcionais. Cada legenda teria que formar o próprio elenco e contar com seus votos para fazer bancada. Quer dizer, votando no Tiririca do PRB, o eleitor não correria mais o risco de eleger Beto Mansur do PR. O exemplo é da Câmara Federal mas vale para as de vereadores.

Porém, como a polarização que já era grande aumentou, entregando em 2018 as maiores bancadas para petistas e bolsonaristas, e fragmentando a rapa em um nível inédito, as demais legendas, antevendo que a safra de 2020 pode vir bichada, se misturaram num tacho para preparar a goiabada geral e depois fatiar como melhor lhes aprouver.

Para quem olha o Congresso e as Assembleias hoje, com petistas perdidos ou viciados no Lula Livre, bolsonaristas ineptos mais perdidos ainda se dedicando à lacração infinita, e o Centrão fisiologista mandando como sempre mandou, pode parecer tentador dar um passo atrás e permitir a volta das coligações.

É uma pena. Ou, escrevendo pelo lado bom, melhor será seguir adiante, aprender com os erros e cobrar dos congressistas a manutenção da regra, que embora não seja o melhor dos mundos, aproxima a formação das câmaras da vontade popular e fortalece a democracia interna dos partidos à medida que impõe a seleção dos melhores candidatos, isto é, aqueles mais sintonizados com os anseios dos eleitores. Com efeito, a maioria dos partidos de aluguel, sem bandeiras ou bons quadros suficientes, tendem a desaparecer por decantação virtuosa, separando a polpa que a sociedade quer na goiabada das cascas e sementes que não interessam.

 
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