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Contrato sexual

Caso real: um atleta galã, membro da seleção brasileira de sua modalidade, viajou para disputar torneio mundial no Canadá. Enredo que todos podem imaginar: corpos bonitos, hormônios transbordando, vila olímpica só deles. Jogos concluídos, medalhas deixam de ser importantes, o tesão deságua numa pororoca e começa o lelê.

Muito bem. O atleta que abre a crônica foi parar numa festa no apartamento de uma colega canadense e entre eles pintou um clima. Trocaram beijos e sabe-se lá mais o que. Em algum momento a menina foi dormir, o rapaz entendeu que era convite para uma alegria extra e a acompanhou até a cama para ver se consumava a alegria. A canadense, porém, não estava afim, e o brasileiro, como podemos imaginar, achou que era manha e insistiu. Configurou estupro na lei de lá e o nosso conterrâneo só não foi preso porque embarcou para casa antes das autoridades canadenses botarem as mãos nele.

Pano rápido para 2019. Outro atleta, não tão galã, em Paris combina um encontro num quarto de hotel com uma conterrânea brasileira. O caso acaba mal e vem a público, com BO dela reclamando estupro e as conversas e fotos íntimas dos dois publicadas por ele numa rede social com milhões de seguidores.

A sociedade, com espanto ou revolta, trata de julgar o caso antes da Justiça. Dois partidos se destacam: os que acham que, dadas as conversas, a mulher não pode reclamar estupro; e os que entendem que estupro pode ser configurado a qualquer momento a partir do “não” de uma das partes.

Nas minhas relações há um corte geracional muito claro entre um e outro partido. Para velhinhos da minha idade ou mais antigos, mulheres incluídas, conversas por escrito naqueles termos e com aquelas imagens são raríssimas ou inexistentes, donde se conclui que a moça não pode reclamar.

Os mais jovens, mulheres destacadas, entendem que uma coisa nada tem a ver com a outra. Até porque entre eles conversas assim são comuns. Isto é, mesmo entre um casal estabelecido, que trepa com frequência, namora ou até vive junto, pode acontecer de um nude pidão no fim da tarde perder a validade antes da noite. E não é não. Pode acontecer a caminho ou já no local combinado, e até durante o ato. Deu um mal estar e um quer parar, parou. Não é não.

Receio que para a cultura brasileira, machista e impregnada de culpa católica, onde sexo é tabu, só o homem tem que querer e a mulher, no máximo, ceder, tal ideia vai demorar para ser absorvida. Por alguns, jamais será.

Pense em como funciona a moral concebida numa sociedade onde é comum ouvir de homens e mulheres que fulano é frouxo porque pediu licença para um cotoveteta (quando o cotovelo roça no seio), ou porque ficou encabulado ou intimidado com uma peitovelada (o inverso, quando o seio é roçado no cotovelo alheio). Agora calcule a subjetividade envolvida, lembrando que em alguns países cotoveteta e peitovelada configuram abuso.

Urge estabelecer a fronteira entre consenso e dissenso sexual. Mas como fazer quando só há duas pessoas envolvidas e suas respectivas versões sobre o que aconteceu entre ambos, entre quatro paredes? Poderemos contar com a boa índole de todos ou por via das dúvidas é melhor ficar no botequim?

Os sadomasoquistas adotam uma palavra ou gesto (para quando amordaçados) alarme, dado que pedir para parar, dizer “não, por favor” ou “tende piedade”, é parte da brincadeira. Porém receio que escrever um contrato sexual geral venha a ser o método contraceptivo que poderá extinguir a vida humana na terra.

Sinceramente, não sei o que fazer.

 
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