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Integração da América Latina ou bola pra frente e papa Francisco para presidente do continente

Jorge Mario Bergoglio é argentino, professor e papa. Também é o melhor político em atividade no mundo e um Maradona da didática. Mas apesar destes, entre outros atributos, sofre com a dificuldade de ensinar inclusive aos próprios conterrâneos.

Senão, vejamos. Há quinze dias veio a público a carta que o papa enviou a Lula. É cristão prestar solidariedade aos presos, como Jesus fez com ladrões, prostitutas e todo tipo de pecadores. Nada de novo. Mas foi onde a turma no Brasil preferiu prestar atenção, quando a mensagem pontual era: não corrompam o Evangelho com eleições (provocado durante o período eleitoral em 2018, o papa driblou a zaga petista e deixou para marcar o gol católico na Páscoa). Serve também para outras ideias altas, principalmente as de Estado.

E o que fazem seus conterrâneos semanas depois? Usam a grande ideia da integração da América Latina para animar a campanha de reeleição do presidente Maurício Macri, no que são correspondidos pelos malucos do governo brasileiro, com destaque para o presidente Jair Bolsonaro e seu Posto Ipiranga, o ministro PaGue. O que emergiu da visita que era para ser de Estado foi um comício financeiro.

De novo, nada de novo. O começo deste século na América Latina foi marcado por governos que preteriram questões de Estado em favor de seus projetos partidários. Macri e Bolsonaro só repetem a formula de Chavez, Lula, Kirchner.

Em tese, a ideia de integração latino-americana é boa e antiga. Vem desde o século 18 com venezuelano Simon Bolívar, passando pelo 19 com o cubano José Martí,  chegando ao 20 com o brasileiro Franco Montoro. Oxalá também seja inexorável, e que as tungas politiqueiras, como a do termo bolivarianismo, entrem para a História em nota de rodapé, destino de toda mesquinharia.

Abro parênteses para sugerir uma enquete: quanto tempo falta para Bolsonaro descobrir que o sobrenome de solteira da mulher de PaGue é Bolívar e concluir, de acordo com sua lógica de que o nazismo é de esquerda porque o partido de Hitler tinha socialista no nome, que o posto Ipiranga é um infiltrado do Foro de São Paulo?

Voltando ao que interessa, o processo de integração da América Latina, para ser exitoso, inclui outras várias frentes, muito além de uma moeda comum ao Brasil e a Argentina – ainda que esta seja importante e venha sendo aventada desde presidentes José Sarney e Raul Afonsin, que a batizariam de Gaúcho, até as presidentes Dilma Rousseff e Cristina Kirchner.

Como escreveu Franco Montoro em 1987 (original aqui, batido à máquina e rabiscado a lápis em pdf preservado pelo CPDOC da FGV), é antes por medidas concretas e realistas, e com envolvimento de toda a sociedade, que a integração pode ser alcançada. Cultura, turismo, ciência, esporte, mercado devem andar alinhados.

Veja como funciona. Em 1994 Caetano Veloso gravou Fina Estampa, um primor de álbum que reúne clássicos latino-americanos. Dez anos depois, numa reunião tensa do Mercosul, o ministro da Agricultura Roberto Rodrigues resolveu o impasse pedindo a palavra e saudando cada representante com uma canção original de seu país. Todos cantaram juntos e, voltando à tratativas, chegaram a bom termo.

Outro bom exemplo é o filme Diários de Motocicleta, do cineasta Walther Salles, filho de embaixador-banqueiro-mecenas, que mostra o jovem argentino Che Guevara, ainda em fase imaculada, vivido pelo galã argentino Gael Garcia Bernal, rodando o continente com seu amigo “Gordito”. Quem assiste e não sente vontade de viajar, conhecer e abraçar nossos hermanos sofre de algum problema sério.

E ainda temos por afinidade o futebol, a Amazônia, só dois idiomas e bastante parecidos, terras agricultáveis, clima ameno, energia limpa e abundante, interligação física natural que requer pouca infraestrutura considerando as bacias dos rios da Prata, Amazonas e Orenoco.

Até as nossas deficiências, como a instabilidade política e econômica, contam pontos. É menos complicado propor uma saída para o que está bagunçado do que para o que assentou, como a União Europeia cinquenta anos depois da Segunda Guerra.

Mas não dispensemos os nossos êxitos. Para a unificação monetária a melhor experiência pode ser ofertada pelo Brasil. Ou se alguém tiver uma ideia melhor que a do Plano Real em escala continental para a transição que apresente.

Obviamente o Hemisfério Norte, notadamente os Estados Unidos cá no Novo Mundo, receia a harmonia latino-americana – México e Caribe incluídos – que transformaria a região numa potência global. Que receiem. Para eles não seria novidade ceder ao sul, como fizeram intestinamente depois da Guerra Civil, quando os unionistas vencedores resistiam a retomar equilíbrio de forças com os confederados derrotados, em maioria fazendeiros. Naquele então o maior vencedor, Abraham Lincoln, em gesto de estadista, fez a ressalva evidente: o sul tem comida o ano inteiro e assim sobrevive sem o norte, o inverso não é verdadeiro.

Bola pra frente e papa Francisco para presidente do continente!

 
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