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VazaJato ou Sérgio Moro: tchau, querido

É sempre bom lembrar o Machado de Assis dizendo: é melhor cair das nuvens do que de um terceiro andar.

Para você, freguesa, desencantada com a força-tarefa da Lava Jato depois da promiscuidade entre o juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dellagnol reveladas pelo site The Intercept, se não cura as dores do desencanto, pelo menos talvez possa consolar.

Sei como é, mas sortudo que sou, me desencantei ao modelo varejista brasileiro, em suaves prestações. O “suaves” entra por conta do jargão publicitário e não reflete a tristeza que senti a cada baque.

Igual a tantos, celebrei, indignado, o vazamento da conversa entre Dilma Rousseff e Lula feito pelo então juiz Sérgio Moro. Naquele então a presidente da República era gravada dizendo ao antecessor que o “Bessias” serviria como portador de um documento que faria Lula ministro, garantindo foro privilegiado e impedindo que um juiz de primeira instância pedisse sua prisão. Lula agradeceu e se despediu com o célebre “tchau, querida”. Repreendido pelo STF, Moro reconheceu o erro e pediu “escusas”.

Porém, outros erros ainda mais graves, do juiz e de integrantes da força-tarefa, incluindo Dellagnol do MPF e a delegada Erika Marena da PF, seguem sem um pio. Para ficar em seis pontos destaco: reitor Cancellier; delações sem prova mas com prêmio garantido; empresas destroçadas e fortuna pessoal dos donos preservadas; outros vazamentos seletivos, como o de parte da delação de Antonio Palocci em período eleitoral; perdão ou silêncio sobre corrupção de coleguinhas de governo; conge.

É tudo muito grave e incrivelmente vem sendo relevado pela Justiça e pela sociedade, mesmo considerando que errar é humano e que a Lava Jato tem o mérito de ter enfrentado forças até então intocáveis. Agora sabemos como o esquema da força-tarefa funcionou e a máxima sobre campanha eleitoral e salsicha, segundo a qual quem sabe como são feitas não compra, foi atualizada com o maior escândalo do Judiciário na história.

Um amigo objetou: para desentupir a privada alguém tem que botar a mão na merda. Pode ser. Mas é o mesmo argumento usado pelos políticos que meteram a mão em caixa-dois para turbinarem suas campanhas e chegar ao poder. Equivalente ideológico-partidário da licença poética? Vá lá. Mas ao contrário de um político, juiz e promotor não podem ter ideologia ou partido como as mensagens reveladas mostram.

Insisto: quem, como eu, defendeu o afastamento de Aécio Neves, Michel Temer, Lula e Dilma Rousseff depois da revelação de conversas não republicanas, por coerência deve defender o afastamento de Moro, Dellagnol e outros implicados pela reportagem.

Segundo Glenn Greenwald, jornalista inglês radicado no Brasil e editor responsável pelo site The Intercept, o volume de dados disponíveis é colossal e o que foi publicado no domingo é só o começo. Há áudios, vídeos, documentos e mais gente por aparecer. Quer dizer, vai piorar.

Mas já é o suficiente para que os envolvidos se afastem de suas funções, até porque nenhum deles nega o conteúdo. No caso do ministro Moro, tudo o que ele fez parece o famigerado ctrl+C ctrl+V das desculpas dadas por cada réu da Lava Jato.

Se optar por resistir no cargo, quem vai sofrer é o governo e a Nação com um ministro da Justiça altamente suspeito. O Congresso deve convoca-lo para se explicar, no STF um pedido de suspeição dorme na gaveta de “vistas” de Gilmar Mendes.

O código de processo penal é claro: Art 101 – Julgada procedente a suspeição, ficarão nulos os atos do processo principal, pagando o juiz as custas, no caso de erro inescusável; Art 254 – O juiz dar-se-á por suspeito e, se não o fizer, poderá ser recusado por qualquer das partes / IV – Se tiver aconselhado qualquer das partes; Art 564 – A nulidade ocorrerá nos seguintes casos / I – por incompetência, suspeição ou suborno do juiz.

Ministro Moro, poupe o Brasil e peça licença. Vossa Excelência melou a Lava Jato e já perdeu a cadeira no STF por falta de conduta ilibada. Com sorte, dirão que lhe falta notório saber jurídico. Pode ainda perder a aposentadoria de juiz e ter que arcar pessoalmente com os prejuízos causados. Sendo assim, faça como o pobre brasileiro, que sem mais nada de seu para contar, faz questão de manter o mínimo de vergonha na cara. Tchau, querido.

 
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