Facebook YouTube Contato

Do Esquadrão da Morte à Lava Jato

Uma piada da época da redemocratização me vem à memória. O Esquadrão da Morte, tipo de milícia de justiçamento que surge ainda na ditadura militar, ou um bando formado por policiais que, descrentes da Justiça, saía pelas periferias condenando à morte aqueles que julgavam ser bandidos, vinha diariamente no noticiário.

Como as autoridades mais altas faziam vista grossa e a “gente de bem” apoiava a prática – me lembro de tios ralhando com promotores e defensores dos Direitos Humanos e afirmando que o Estado deveria antes municiar do que conter o bando –, o Esquadrão da Morte, entediado com a falta de limites, passou a matar aleatoriamente inclusive quem sequer tinha indício de contravenção, só para provar que o Estado não funcionava.

Tamanha era a radioatividade que a contaminação entrou nos quartéis de polícia. Fardados ou à paisana, em serviço ou de folga, policiais não sabiam mais quanto estavam rigorosamente representando o Estado ou acreditavam agir por conta própria, e matavam antes para perguntar depois. Era comum PM carregando uma arma extra e fria.

Nesse sentido avançamos um pouco e retroagimos outro tanto. Se já não é tão comum que PM ande com uma arma extra, há milícias espalhadas pelo país inteiro. A polícia ainda mata muito, sobretudo nas periferias. Mas o pior, sem dúvida, é constatar a contaminação para cima, até porque pela altura da montanha se dimensiona a extensão de sua base.

E então chegamos à piada triste, bastante popular nos meus verdes anos. Foi uma gincana entre três polícias, Scotland Yard, SWAT e ROTA. Numa ilha, soltavam um coelho e a equipe que encontrasse o bicho antes seria vencedora.  Os ingleses voltaram em quinze minutos. Os americanos, em meia hora. E os brasileiros só no final do dia, não com um coelho, mas com um jabuti todo ralado que jurava: sou um coelho, sou um coelho!

A dura realidade é que o cenário piorou e parte da sociedade ainda aplaude. Proporções guardadas, os paladinos da Lava Jato, flagrados em promiscuidade na reportagem do Intercept com as conversas entre o juiz Sérgio Moro, o procurador Deltan Dellagnol e outros membros da força-tarefa, combinaram meios de transformar muito jabuti em coelho de acordo com suas convicções. Não falo de Lula ou de um caso específico, mas de tantos delatores que, sem provar o que disseram, hoje gozam liberdade relativa e usufruem do patrimônio roubado porque de certa forma saciaram o desejo de justiçamento da sociedade contra a corrupção.

Reputações foram destruídas, empresas faliram desempregando milhares, reitor Cancellier suicidou-se. O MPF do Paraná tentou pegar R$ 2,6 bi da Petrobrás para criar uma fundação de direito privado. Mas tudo isso parece ser secundário para algumas pessoas. A Lava Jato, que parecia ser uma operação corajosa de enfrentamento das forças corruptas estabelecidas, foi desnudada revelando covardia e parcialidade, e amargamente ainda há quem enxergue a nudez como símbolo de pureza.

Triste, desanimador, desesperador. Mas ainda tenho fôlego para advertir: quando juiz e procurador se corrompem numa súcia e atropelam a lei, ninguém está a salvo de ter que jurar é coelho.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
No Comments  comments 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>