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Mercado para morrer ou salvem o capitalismo

A turma do tal mercado, e especialmente os funcionários rasos, gostam de destratar o Estado e os governos, dizendo que estes atrapalham o que entendem por “setor produtivo”.

Vá lá que tenham alguma razão. O que tem de norma absurda pelaí é de matar. Hoje sou praticamente profissional liberal e sigo confuso quanto às minhas obrigações tributárias. E depois de ter me arriscado num restaurante, que acabou falecendo depois de quatro anos, serei eternamente solidário ao coitado do pequeno empreendedor. Quem vai ao contador com uma dúvida, volta com duas.

O curioso é o tal mercado, assim entendido pelo que na Faria Lima ainda chamam de “players”, ou “big shots” na Wall Street dos anos 1980, mostrar os dentes para o Estado em entrevistas e convescotes e abanar o rabo em Brasília, principalmente quando rói o sofá – e chama o governo para acertar com o tapeceiro.

No cerne filosófico das reclamações do mercado está a crença de que ele seria capaz de resolver os próprios problemas, e quanto menos interferência normativa, melhor. Na melhor das hipóteses é esquizofrenia, na pior, malandragem.

Se não, vejamos. Danone e Nestlé, companhias que abusam da permissividade na sedução de crianças para vender seus produtos, quando corresponsabilizadas por trabalho escravo infantil na produção de suas matérias primas, avisam que seria impossível verificar cada unidade produtiva. É de ruborizar Pilatos.

Ambev e outras corporações verticalizadas esfolam clientes e fornecedores, tungam consumidores alterando sem consideração receitas que são parte da memória afetiva da sociedade, bancam historicamente campanhas eleitorais as mais diversas e, quando contrapostos com o privilégio de merecerem incentivos fiscais para envasar água com açúcar em garrafa PET na Zona Franca de Manaus, ameaçam o governo com demissões em massa.

Mesma receita de todas as montadoras de automóveis, sempre com apetite por mais um desconto fiscal. Quando recebem, com a contrapartida de empregar, não só não empregam como seguem demitindo.

As gigantes de tecnologia, Amazon, Alphabet (Google), Facebook, controlam e dirigem consumo e informação numa dimensão bem mais ampla que uma ditadura poderia fazer, e recusam qualquer possibilidade de regulação e transparência que são exigidas a qualquer organismo que concentre tamanho poder no mundo civilizado.

Dos bancões, notadamente os brasileiros, talvez seja dispensável falar. Mas para ficar em um deles, o Itaú-Unibanco teve perdão de mais de vinte bilhões de reais em impostos devidos a partir de sua fusão. Para quem foi o dinheiro? Aqui na minha cidade, São Paulo, deviam um monte em ISS, fizeram um acordo quase sigiloso com a Câmara Municipal e… não informaram a CVM. Por quê?

A Petrobrás, na berlinda da corrupção desde o petrolão, passou por um processo de modernização administrativa sob a presidência do Pedro Parente, que criou instâncias de verificação de processos, freios e contrapesos, a fim de evitar que a lambança dos governos anteriores se repetisse. Políticos ligados a tais governos foram rechaçados nas urnas, donde emergiu Bolsonaro. E o que faz o Messias? Nomeia Castello Branco, que desfaz o trabalho do Parente e concentra em si as grandes decisões, suprimindo inclusive a opinião dos acionistas. Tudo com a benção do “liberal” Paulo Guedes, o PaGue, a cada dia mais parecido com o Cebolinha, cujos planos infalíveis só convencem os que veem no vestido vermelho da Mônica uma ameaça.

Mais grave só a posição dos grandes fundos globais. BlackRock, Vanguard, Fidelity, Wellington, JP Morgan Chase, Berkshire Hathaway, State Setreet (!), se fossem países, estariam no grupo da dúzia mais rica e poderosa. Mas pouca gente sabe que eles existem e as decisões são tomadas por comitês que caberiam numa Kombi.

Tenho pra mim que melhor seria se fossem declarados nações, com regras mais claras e processos decisórios mais transparentes. A favor do Bill Clinton e do Koffi Annan, é justo dizer que bem tentaram, ainda no século passado, mas então veio o 11 de Setembro, sufocando o debate pelo medo, liberando várias nações para tomar decisões como se empresas fossem. Quer dizer, deu-se o inverso.

Mas como seriam tais gigantes corporativos se fossem países democráticos? Os países democráticos funcionam? Se não funcionam, quanto de responsabilidade têm as grandes corporações? Fossem elas mais parecidas com países, e não o inverso que se concretizou neste século, haveria maior reconhecimento de suas responsabilidades sociais?

Já vou longe e preciso encerrar. Mas não sem deixar claro a quem leu a crônica como um manifesto socialista, conceito que fracassou no mundo inteiro sempre que foi tentado, que o que há de mais parecido com o socialismo é justamente a mega corporação privada, que faz meia-dúzia de oligarcas e uma imensidão de pobres. Ou que, se o preço de um chocolate depende de trabalho escravo para atender o consumidor, pode-se chamar de muita coisa, menos de capitalismo.

Com a agenda socialista do século XXI, o mercado está marcado para morrer.

 
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