Facebook YouTube Contato

Complexo de chihuahua e autoridade

Sempre achei que autoridade pra valer é suave. Que forte é quem protege, não quem ataca. Foi o que a observação da vida me ensinou. E como dizem que depois dos quarenta a gente “dobra a serra”, perplexo me encontro com tanta gente, inclusive os bastante mais adiantados do que eu na estrada, dizendo o inverso, aplaudindo o inverso.

Ora, para mim a autoridade é aquela de mãe ou pai cujo olhar basta para enquadrar o filho traquinas. E o inverso é verdadeiro. Pais sem autoridade sobre os filhos costumam chamar atenção desnecessária a um comportamento inapropriado.

O conceito é tão forte que vale para outras espécies. Um cachorrinho inofensivo sempre vai latir à toa, enquanto ao cão de guarda dorminhoco basta abrir os olhos e fitar uma cena para fazer os presentes pisarem de mansinho. É a diferença entre o chihuahua e o rottweiler.

E qual não foi minha surpresa ao ouvir e ler  comentários favoráveis ao piti do governador João Doria ao constranger em público um coronel de Polícia Militar porque este consultava o telefone celular durante um discurso político. Não compreendo, não consigo compreender.

Primeiro pela própria impostura. Bom senso, urbanidade, educação mandam que um superior insatisfeito com comportamento de um subordinado o repreenda em privado. E considerando que um coronel de PM deve estar sempre alerta, que toda e qualquer mensagem em seu telefone pode ser urgente, donde o tempo de resposta pode ser determinante para a segurança geral, inclusive do governador, esperar que este seja plateia vulgar de discurso político é no mínimo insensato; e deselegante, mal educado. Resumindo, é burrice.

Outro exemplo que vai no mesmo sentido e veste os adjetivos acima sem precisar de ajuste é a forma escolhida pelo presidente Jair Bolsonaro para demitir o presidente do BNDES. Invés de chamar o subordinado, dizer que está insatisfeito e pedir o cargo, usa uma entrevista para enviar um recado deselegante e inapropriado.

No conteúdo, a demissão faz tanto sentido quanto a bronca do governador no coronel. Se a insatisfação verbalizada era mesmo com a nomeação de um técnico que serviu ao governo Dilma Rousseff, como fica o próprio Jair Bolsonaro que nomeou o próprio Joaquim Levy, ex-ministro de Dilma 2? O próprio Bolsonaro, que dia sim, outro também, festeja o ministro da Infraestrutura Tarcísio Freitas, engenheiro e militar que serviu aos governos Dilma 1 e 2?

A lista é maior, inclui general Augusto Heleno, que bate na mesa do café da manhã mas não responde pela sua atuação nos anos mais corruptos do Comitê Olímpico Brasileiro, o governador fluminense que fala em míssil contra favelados mas pia fino quando a primeira-dama entra no palácio, ministro da Educação metido a comediante que usa fatos alternativos para atacar parlamentares.

Sobre o ministro da Justiça nem tem o que dizer. Rosnou enquanto pôde na pose de herói e agora usa a cadeira que já foi de Ruy Barbosa e Tancredo Neses para se defender de questionamentos sobre sua conduta anterior à nomeação, num vexaminoso “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. O mesmo vale para o ministro da Fazenda, PaGue ou Cebolinha, fazendo birra toda vez que seus planos infalíveis encontram a realidade.

Enfim, é o que temos para hoje. Escolhemos isso para mandar no país e nos estados que estão entre os mais ricos da federação. Entregamos a segurança e os destinos da casa a uma matilha de chihuahuas. Agora é suportar a latição até 2022.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments