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Agradecer aos Rueda e viva a Casa do Porco

Francisco Perrota-Bosch atacou a Casa do Porco na Folha do dia 25 de junho. Assina o artigo avisando ao leitor que é arquiteto e crítico de arquitetura. Mas na verdade critica o urbanismo, que provavelmente estudou, mas não aprendeu.

Abro parênteses para insistir que as FAU deveriam se chamar FUA. O acrônimo não fica tão bonito, mas me parece essencial para os estudantes se lembrarem que o urbanismo precede a arquitetura. Que se o urbanismo for ruim, não há arquitetura que salve. Que o valor final de um imóvel é determinado antes pelo urbanismo do que pela arquitetura. Como o mestre Paulo Mendes da Rocha ensina, basta comparar o que tem de material e mão de obra investidos numa mansão no Morumbi e numa quitinete em Ipanema, e ver quanto custa cada um.

Voltando ao crítico Perrota, ele escreve que o projeto de arquitetura da Casa do Porco tem “requintes de crueldade” nas janelas abertas para a calçada, sendo uma a vitrine que exibe o premiadíssimo açougue do chef Rueda, e a outra um balcão de venda de sanduíches para quem quiser comer na rua, porque constrangeria as pessoas desabrigadas que viviam sob a marquise. Para ele o problema é atrapalhar quem mora na rua, e não resolver com programas de habitação de interesse da sociedade.

Não contente, Perrota avança, mostrando que não aprendeu urbanismo ao condenar as mesas na calçada e até o toldo que estende a função da marquise, dizendo que tomam espaço dos pedestres. Ora, como o próprio crítico lembra, citando os cafés de Paris, mesas de bar nas calçadas são positivas para as cidades. Mas não lhe ocorre que, se tem mais gente na calçada do que calçada, que amplie-se a calçada sobre o espaço absurdamente destinado a estacionar carros, notadamente num bairro repleto de infraestrutura de mobilidade.

Porém, o adjetivo “vitalidade”, que ele escolhe para reconhecer o fenômeno das mesas nas calçadas, é contraditório para quem duas linhas antes lamentava o constrangimento dos desabrigados que moravam no mesmo espaço. Vitalidade é qualidade de algo que está vivo. Seriam os desabrigados zumbis aos olhos de Perrota?

Para muitas pessoas em São Paulo, sim, que de dentro dos SUV olham os que só têm as ruas para morar como zumbis. Mas não para os donos da Casa do Porco.

Quando a obra começou, ali morava uma menina chamada Amanda. Magra e dependente química, acordava no horário do almoço dos peões que trabalhavam na reforma. E pedia comida. Então a Janaína Rueda propôs que ela ajudasse na limpeza, sendo remunerada e tendo direito a mesma comida de todos os operários. Fazia vale sem questionar o que Amanda faria com o dinheiro. Houve recaídas e faltas, naturalmente. Mas Amanda persistiu. Quando a Casa do Porco foi inaugurada, passou a trabalhar no Bar da Dona Onça, dos mesmos donos, ali no Copan. Também trabalhou com Janaína no programa de melhora da merenda escolar do governo do estado, infelizmente encerrado pela “gestão” atual. O governador João Doria, que mentiu dizendo que a cracolândia tinha acabado, deveria se aproximar deles para ver o potencial de transformação social que empreendedores de verdade têm. Ah, hoje o problema da Amanda é emagrecer um pouco.

Tem mais calçada. Poucas quadras acima,  na mesma Bento Freitas, um predinho cor-de-rosa, que é um camafeu de bem-feito, andava algo decadente. Janaína e Jefferson foram para lá, alugaram uma loja que dá para a calçada e abriram o Hot Pork, balcão de cachorro-quente. No vizinho, montaram a Sorveteria do Centro, sob os cuidados da confeiteira Saiko Izawa, dona das mãos e do gênio mais delicado em atividade em São Paulo.

Conflito: a esquina, erma, era ponto de prostituição, e as michês trans que ali trabalhavam foram reclamar que o movimento esperado atrapalharia a faina. Solução Janaína: oferecer emprego a quem quisesse. E assim foram inauguradas e continuam sendo animadas as casas, com drags divertidíssimas harmonizadas com o cardápio festivo.

O infeliz Perrota encerra insistindo na contradição ao considerar “golpe de marketing” de “revitalização” montar restaurantes festejados na região central, tentando lacrar chamando de arquitetura extrema o presente que os Rueda deram para a República, ignorando o bem que as casas fizeram para um caso raro de bairro urbanisticamente exitoso.

Talvez para Perrota, o ideal arquitetônico seja o do nosso querido Carlino, restaurante mais antigo da cidade, ora fechado para a Bento Freitas, provocando saudades nos clientes que o frequentavam com amplas janelas na Vieira de Carvalho.

De todo modo, a notícia boa é que Perrota-Bosch se dedica à crítica de arquitetura. Fosse ele um engenheiro mecânico alemão, provavelmente em breve teríamos carros e ônibus autônomos sem janela, forrados por dentro com papel de parede, evitando que a conivência na cidade constrangesse seus cidadãos.

Liguem não, Jana e Jeffinho. Não passem recibo. Apesar de merecido, evitem a tentação de batizar algum coquetel da casa com o nome de espírito de porco em homenagem ao crítico.

 
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