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Balanço do Bolso: seis meses

Ainda durante a campanha para presidente da República, Tancredo Neves foi recebido com imensa manifestação popular em uma determinada cidade. Note que a eleição foi indireta, mas as pessoas queriam Tancredo, a volta do poder civil, ditadura nunca mais.

Aécio, seu neto e secretário particular naquele então, perguntou ao avô o que ele faria com tamanha popularidade, que respondeu: vou gastar em três meses. Quer dizer, tomaria medidas amargas como um xarope para curar os males que via maltratando o Brasil.

A lembrança aqui se justifica não por conta dos personagens, mas porque o governo atual completou ontem seis meses, onde o presidente da República ralou a popularidade sem conseguir qualquer avanço.

Governando com a família e pela família – a própria, diga-se –, Bolsonaro se desgastou em pautas caras aos seus. Um filho tem problema pessoal com um ministro e arranja briga virtual? Demite-se o ministro. Parentes plantam bananas no Vale do Ribeira? Suspende-se a importação da fruta do Equador. A BolsoFamília coleciona multas de trânsito? Cancela-se radares. Gostam de armas? Assina-se uma enxurrada de decretos que nem a bancada da bala entende para defender, e que acabam fracassados.

Onde pode conferir êxitos, o governo ataca com cascata. Aprovado acordo histórico Mercosul-UE depois de vinte anos de trabalho de Estado, o Presidente, seu ChanCelerado previsivelmente tentam faturar, fingindo não terem declarações contra o multilateralismo. Com a MP que autoriza o pente-fino no INSS é parecido, faturam sem lembrarem de combater fraudes em pensionistas filhas de militares. Autorização para vender subsidiárias das estatais sem precisar de aval do Congresso? Também teve. Mas os mecanismos de conformidade na maior delas, a Petrobrás, criados para evitar outro Petrolão, foram escandalosamente desmontados. E o aval para descumprir a regra de ouro não é outra coisa senão uma autorização para pedalar.

As derrotas são mais evidentes. A agenda maluca vem sendo combatida institucionalmente pelo Poder Legislativo e organismos internacionais, como nos decretos de armas, diminuição da transparência governamental, demarcação de terras indígenas, desvio de finalidade do fundo da Amazônia. Tudo barrado graças às instituições competentes.

Três fatos inéditos para seis meses de governo: a pior avaliação para um presidente no período, reeleição em pauta, convocação de duas manifestações a favor do modo de governar – sintoma de que Bolsonaro reage mal aos freios e contrapesos republicanos e mostra que está disposto a seguir só com o apoio de sua base muscular-reacionária, prestigiando seguidores em redes sociais e ministros mais polêmicos, enquanto manda auxiliares racionais para o microondas.

Bolsonaro parece saber o que está fazendo. Apesar de menores do que as do dia 26 de maio, as manifestações do 30 de junho reuniram bastante gente disposta a passar vergonha defendendo Sérgio Moro e o governo como se defendessem o combate à corrupção. Ora, há na Casa Civil um corrupto confesso, no Turismo um investigado por laranjal com o principal assessor e coordenador de campanha preso, inúmeras evidências de funcionários fantasmas, rachadinhas e súcias milicianas nos gabinetes da BolsoFamília, com a primeira-dama, o primeiro-filho e um amigo com quarenta anos de intimidade envolvidos até o pescoço.

Moro dá de ombros e não parece se importar com o fedor, no que é seguido por fãs da Lava Jato como se ele ainda estivesse em Curitiba e não fosse motivo de desconfiança e tenha merecido acusações de parcialidade pelos membros da própria força-tarefa. No mundo real, defender a Lava Jato seria pedir seu afastamento e explicações convincentes, e não apoia-lo incondicionalmente. Mas no mundo delirante dos bolsominions e morominios dá-se o inverso. Não por acaso, os mesmos que falam em Justiça para o PT dizem que investigar Queiroz e ZeroUm é perseguição, ainda que Michele não tenha sido intimada a depor.

O cenário futuro não é melhor. Passada a Previdência, agenda que vem de longe e à qual Bolsonaro teve que curvar-se, mesmo a contragosto, Paulo Guedes, outro pilar de seu governo, precisará de uma agenda nova, que deve ser a reforma tributária.

Já tendo assumido que não fez nada até agora, apesar de tantos desempregados e desalentados, porque a prioridade é a Previdência, PaGue terá que mostrar a que veio, e na questão tributária parece não ter nada combinado com o chefe, que abertamente diverge de suas ideias.

De acordo com declarações recentes, o plano infalível do Cebolinha da Economia para impostos é uma diminuição geral, mas com alívio e até isenção para quem ganha menos, e peso maior para quem ganha mais, incluindo diminuição das possibilidades de deduções, como em plano de saúde e mensalidade escolar. Bolsonaro é contra e é óbvio que classe-média bolsonarista vai estrilar, restando a PaGue duas opções: engolir o sapo ou pegar carona da FAB só de ida para o Leblon.

 
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