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A gestão do “eu acho”

Era um jovem advogado muito bom na parte comercial da banca. Vendia o trabalho do escritório que era uma beleza. Em tudo que é convescote, lá estava ele, em toalete perfeita, amaciando e ampliando a freguesia.

Dava duro, coitado. Sequer tinha tempo para conhecer os processos e dizia-se que jamais entrara na biblioteca, por sinal caprichadíssima, formada pelo fundador, seu padrinho, ao longo de 45 anos.

Quando o velho preparou a sucessão foi um bololô. Entre tantos herdeiros, havia os que conheciam tudo do trabalho porta pra dentro, ou da advocacia propriamente dita, e se dispuseram a tomar a frente da administração. Mas o nosso herói era a cara pública da banca, falava bem do comercial, e numa reunião saiu com esta: “Não sou advogado, sou gestor. Ges-tor.” Donde os acionistas decidiram que era a pessoa adequada para dirigir o escritório, se esquecendo que na verdade ele era vendedor. Ven-de-dor.

Seu primeiro ato foi repaginar o ambiente. Os lambris do gabinete do velho foram revestidos com vinil preto, sugestão de uma decoradora sua amiga, que se empolgou e meteu o plástico até sobre a antiga mesa de reuniões, em madeira de lei.

Já acomodado nas novas instalações, olhou os números da contabilidade e descobriu que a tal biblioteca (que, de fato, ele conhecia só de nome) consumia uma gaita em infraestrutura, ar-condicionado, desumidificador, restauração de obras raras, manutenção do arquivo, e ainda tinha uma equipe de estudos que se aprofundava em temas não necessariamente cotidianos, mas que orientava casos novos com dados que iam de jurisprudência à estatística. Isso sem contar o preço do metro quadrado do espaço, que poderia ser fonte de receita.

Chocado, o gestor debochou: Não faz o menor sentido! Então determinou o fim da biblioteca e toda sua estrutura. Alguém argumentou que o custo da biblioteca era menor do que o gasto em cafezinho e pão de queijo nas reuniões, e ouviu que “livro é hábito alimentar de traça, não de cliente e acionista”. Ainda lembraram que a base do êxito histórico da banca se devia à inteligência ali acumulada, que cada vez mais dados são preciosos para decisões acertadas. Em vão.

O plano de demissão dos funcionários está acelerado e o novo leiaute do salão já está pronto. Tudo preto, à exceção de um retrato coloridíssimo da deusa Têmis, assinado por Romero Brito.

Um estagiário vendou os próprios olhos com a gravata, brincando que era melhor ser cego do que ver aquilo, e sentiu o peso da espada. Sempre enfatizando as sílabas, o gestor cravou: Você está de-mi-ti-do!

Teimoso, o aprendiz limpou as gavetas e foi se despedir da biblioteca que usava mesmo antes de entrar para a banca, porque esta era franqueada a estudantes, princípio do fundador. Perguntou na saída o que seria feito do acervo, mas ninguém tinha pensando nisso.

A propósito: o governador de São Paulo extinguiu a Emplasa, empresa responsável pelo planejamento metropolitano do estado. São 45 anos de conhecimento acumulado, precioso notadamente no momento em que mais e mais cidades são fundidas, criando regiões metropolitanas. Ninguém diz qual será o destino do acervo, de valor imensurável.

Limpar um rio, por exemplo, depende de governo metropolitano, porque se uma só cidade por ele cortada não colaborar, continuará sujo. Para funcionar, depende de planejamento, que só pode existir se feito sobre dados.

Mas era previsível, considerando que em seu rasante pela prefeitura da capital, o ora governador fez tudo da sua cabeça e sem qualquer planejamento, desde dois muros malucos que já acabaram, passando pelas mudanças nas velocidades, até rasgar o Plano Diretor apontando o desenvolvimento do leste para o sul. Vale frisar: tudo porque ele achava.

 
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