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A trilha do trilhão

Vastamente conhecido, o plano infalível do Cebolinha, oficialmente conhecido como ministro Paulo Guedes, era reformar a Previdência para, em dez anos, economizar um trilhão.

A proposta original seguia o padrão do marreteiro, vetor de toda negociação humana, dos semáforos aos andares altos da Faria Lima, passando pelas coisas do coração, seja entre “conjes” ou pai e filhos, que parte do princípio de que devemos pedir mais do que desejamos para, ao ceder, fazer parecer que somos razoáveis. Com efeito vem a recíproca, o troço escala e tão cedo não evoluiremos para a franqueza. Obra maior da humanidade, a política obedece à regra.

Ao elaborar seu plano, Cebolinha caprichou na crueldade, que a bem da verdade pode ser atribuída ao longínquo antagonismo com a Mônica, aquela menina histérica que anda de vermelho e desce o sansão sem dó do lombo adversário. Chumbo trocado, enfim.

Por inabilidade política, Cebolinha exagerou a ponto de fazer chorar quem descascava o texto. Tirar BPC e aposentadoria rural era demais. Nem madrasta faria um negócio desses. Ficou tão evidente que a própria equipe econômica assumiu os jabutis – termo parlamentar-tupiniquim para algo que está mas não se pode explicar e muito menos defender, mas que continua servindo para proporcionar alívio quando extraído.

Logo no começo do ano a inabilidade quase botou tudo a perder. Pior que a Mônica é o Centrão, organismo político que, igual ao Cascão, agride mais do que uma coelhada sem precisar erguer o braço, porque ataca o olfato e continuadamente, sem trégua, e que como a Magali tem um apetite infinito. A coisa fedeu a ponto de ficar entendido que a Nova Previdência alcançaria, no máximo, R$ 500 bilhões em dez anos.

Então um parlamentar reformista e experiente lançou mão de um jabuti inteligente. Para chegar ao trilhão, ou perto dele, o caminho seria reter no Tesouro os recursos do PIS-PASEP/FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) que são do BNDES.

Sim, era outro jabuti evidente, até porque, no final das contas, são dois bolsos da mesma calça, com o agravante de que poderiam ser exigidas explicações sobre a autonomia do governo para mexer em cada bolso – há regras para isso no Estado.

Para a gente entender como política não é para amadores, dois problemas derivaram da ideia pacificadora: 1) Cebolinha adorou a ideia e fez questão de manter no texto, tanto porque ajudaria na retórica do trilhão quanto porque não gosta do BNDES; 2) Veio a crise Levy, presidente do banco, mandado ao microondas em acordo entre Paulo Guedes e Jair Bolsonaro, por motivos financeiros e políticos, respectivamente.

A turma do deixa-disso teve que suar para ajeitar as coisas e, ontem, passou na Câmara a versão final do primeiro acordo sem nenhum dos jabutis citados, obra política de parlamentares experientes.

Ficou uma conta para o Chico Bento, ou o produtor rural que exporta. Como passou, considerando o poder atual da bancada ruralista? Elementar: no embate com outro jabuti, que era a ideia de taxar os bancos. Na briga entre os tons de verde, cana e pasto valem muito, mas dólar vale mais.

O próximo passo é no Senado, que deve ainda discutir se inclui estados e municípios. É a Casa certa para o debate, por reunir representantes dos estados.

O problema central aqui é político, não financeiro. Deputados federais resistem em assumir o ônus de aprovar em Brasília mudanças que desagradam suas bases nos estados e municípios, e a primeira base eleitoral de cada um deles é feita de funcionários públicos que defendem antes de tudo seus privilégios. Por isso a primeira reforma deveria ser a Política, mas agora é tarde.

Concordando ou não com o texto, creio que todos devemos celebrar a inegável vitória da Câmara dos Deputados, com todos seus vícios e virtudes. A Casa do Povo valorizou a política, o diálogo, o entendimento E seu maior troféu veio de Minas, terra de grandes conversadores. Não pelo resultado do Brasil x Argentina, mas pela foto que mostrava, no momento em que se votava o texto mais esperado dos últimos anos, a maioria dos membros do Poder Executivo bem longe de Brasília, acompanhando o presidente Bolsonaro no Mineirão, para não atrapalhar. Principalmente o Cebolinha, que tirou do armário uma gravata yuppie, tradução estética de sua máxima “continuo onde sempre estive há quarenta anos”, ou seja, com o raciocínio nos anos 1980.

 
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