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No Brasil de Bolsonaro, não se entende parece se entender e, quem se entende, faz o inverso

Um meme divertido que passeia pela internet mostra uma foto de Jair Bolsonaro com seus três filhos parlamentares e a legenda: Presidente reunido com a oposição.

A gente ri para não chorar. Na verdade é altamente preocupante a situação.

O ZeroUm, senador, está bem enrolado com a Justiça em processo que envolve a primeira dama Michelle e o Queiroz, amigo de Bolsonaro desde antes do varão nascer. O ZeroDois, vereador, dá sinais de que precisa urgentemente de apoio psicológico profissional e levanta dúvidas sobre a eficiência do exame psicotécnico para posse de arma de fogo, agenda central do governo. ZeroTrês, deputado, viaja oficialmente ao lado do pai, é chamado de Chanceler pelo porta-voz da PR, orienta trabalho de ministra pelas redes sociais.

Enquanto isso, a oposição de verdade, a mais organizada e articulada em vigor, curiosamente segue mais alinhada do que divergente do governo. Trata-se do sombrio gabinete do governador paulista João Doria, literalmente o shadow cabinet bandeirante. Sem a mesma atenção dos governos federal ou municipal, anulou os conselhos de participação do meio ambiente e de patrimônio histórico e seu partido, o PSDB, sinaliza que está alinhado ao PSL no projeto de anular o conselho de direitos humanos.

É muito estranho. A legenda tucana nasceu há 31 anos propondo maior participação da sociedade e, quando a sociedade enfim demonstra querer participar com mais afinco das decisões públicas, o PSDB rasga a bandeira.

Estranho mas é o espírito do tempo. Quem não se entende parece se entender e, quem se entende, faz o inverso. Alguns exemplos extra.

O ministro da Economia PaGue veio a São Paulo falar ao mercado financeiro. Avalizou a conduta do chefe ressalvando “uma ingenuidade ou outra”. Eufemismo para a bola dividida sobre a articulação do Planalto para privilegiar policiais na Nova Previdência, sendo derrotado pelos deputados e pela equipe econômica. E a tendência na relação é de degradação maior, quando dentro de alguns meses vier a proposta para a reforma tributária. PaGue quer acabar com a isenção para gastos em plano de saúde e escola particular, devendo levar à loucura a classe média bolsonarista.

Sérgio Moro, ministro e até recentemente paladino da justiça, desmorona a cada dia. Sem vergonha, usa o Estado para fazer sua defesa pessoal, em ato que se é feio em teoria, na prática subtrai a urgência de medidas contra a violência que assola o país. Como sempre dá para piorar, em coletiva no Japão durante o G-20, Bolsonaro disse que Moro abriu para ele o inquérito da PF sobre o laranjal em seu partido – processo que corre em segredo de Justiça.

É escandaloso. E exige uma resposta além: de quando vem esse conluio? Ora, sabemos que o relatório do COAF sobre Flávio e Queiroz, que alcança Michelle, dormiu durante todo 2018 no MP-RJ, só avançando após as eleições. Enquanto a Lava Jato fluminense prendia diversos colegas de Flávio, conselheiros do TCE e quatro governadores, sobre os Bolsonaro nada se fez.

Aliás, Sérgio Cabral, medalhão da corrupção guanabara, admitiu ontem ao juiz Marcelo Bretas que pagou propina para ter as Olimpíadas. Naquele então, o presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, tinha como diretor de comunicação o general Augusto Heleno, hoje no GSI de Bolsonaro. Ganhava salario muito acima do teto e se dizia ignorante ao impedimento. Ignorava também a corrupção? Deveria responder, e de preferencia evitando o padrão adotado para falar sobre a apreensão de 39 quilos de cocaína num avião da comitiva presidencial que estava sob sua segurança. Para Heleno, o flagrante da autoridade espanhola “foi azar”.

Está difícil entender o Brasil de Bolsonaro. Mas devemos concordar com o Presidente quando ele diz que, ao determinar a Sérgio Moro que a PF investigue todos os partidos, para não parecer perseguição ao seu PSL, só quer que a lei valha para todos. Nesta estamos entendidos. Mas não entendo por que o Presidente não bota a ideia em prática, afastando ministros suspeitos, orientando que estes abrissem os respectivos sigilos, e sugerindo ao primogênito e à primeira dama que fizesse o mesmo. Sabemos todos que o melhor caminho para liderar é pelo exemplo.

 
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