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João Gilberto na minha vida

João Gilberto entrou cedo na minha vida, e é claro que foi um deleite. Mas como tudo custa, o prejuízo veio a reboque, com a incompreensão da maioria dos meus contemporâneos, que não entendiam aquela batida mansa, sussurrante, impecavelmente “desafinada” e extremamente sensual. A overdose de adjetivos é uma homenagem ao Nelsinho Motta, superlativo da simpatia.

Me lembro de quando enfim encontrei um CD Amoroso / Brasil para comprar. Acho que foi na Toca do Vinícius, num carnaval em Ipanema. Fiquei com dois para garantir. Por muito tempo, só era possível se importado, e eu não podia correr o risco de ficar sem pelo menos um.

Então veio o ano-bom de 2001, virada do século. Fui com uma turma para Itacaré, que ainda não estava em voga, e levei o álbum. Ouvir Amoroso / Brasil na Bahia, com uma caipirinha de umbu, é uma experiência maravilhosa, noves fora a vodca Natasha. Agora, graças ao Ruy Castro, descobri que o João era fã de umbu, mas em versão sorvete, da Sorveteria da Ribeira, em Salvador.

O problema com o disco, nas tardes de Itacaré, era sintonizar a turma que vinha das micaretas do axé na fazenda do vocalista de um conjunto famoso. Reconheço que era impactante sair do “até o chão” para a batidinha mansa do João. Mas era um impacto assim, batidinha. E a bem da verdade, a favor da turma, registro que, apesar de alguma contrariedade, protestos mesmo só quando a faixa era Besame Mucho. Ou Estate.

Igual a toda inveja, a minha em relação ao pai da Bossa Nova era fruto de uma admiração profunda. Eu adorava quando ele reclamava da técnica nos shows. Mesmo sem alcançar o problema que só ele ouvia, era “claro” que ele tinha razão, até porque sobrava também para o público malcriado, motivo inconteste de incomodo e suficiente para avalizar todo o mais. A bronca que ele dava era tudo o que eu desejava fazer, mas preferi, sempre que pude, a rendição, ficando em casa com meus artistas queridos.

Só o vi ao vivo uma vez, no Tom Brasil. Foi bom, apesar do espaço inadequado, muito amplo. Decidi que então que só repetiria a dose quando tivesse dinheiro para vê-lo num bar pequeno e em Tóquio. Quer dizer, opção definitiva pela rendição aos discos e à proteção do lar.

O Julio Maria, visitando as raízes do João em Juazeiro da Bahia, entendeu o “problema”. “Os amigos começaram a contestar a sanidade mental de João no dia em que o baiano avistou um caminhão vindo por uma estrada que cruzava a cidade. Como se recitasse uma oração, ele disse baixinho: ‘Veja lá aquele caminhão, que maravilha. Olha como as árvores da estrada acariciam sua cabeça.’”

Meus amigos velhinhos gostam de brincar com a meta de sublimação do sexo. Dizem que sua maior vontade é, um dia, nem pensar naquilo. Sempre achei graça, mas me perguntava quem seria capaz de tal proeza. Um dia me ocorreu: o João Gilberto. Naquela plenitude de sensualidade, suspeitei que ele bem podia viver livre de trepar. Quebrei a cara quando, beirando os oitenta anos, ele aparece com a namorada grávida da filha caçula. Nem o João, meu deus!

Passei o sábado seis de junho nos anos 1950, no Star City, restaurante em Santa Cecília. A notícia da orfandade da Bossa Nova só tive ao chegar em casa e abrir o telefone. Não fiquei triste pelo João Gilberto, que por sinal merecia descansar. Sinto é pelo Brasil que ele ajudou a inventar e mostrou como era possível, mas que a gente faz questão de matar de tempos em tempos.

 
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