Facebook YouTube Contato

Estadista também chora

Inúmeros analistas chamaram de “discurso de estadista” a fala de Rodrigo Maia ontem na Câmara dos Deputados após a aprovação do texto base da reforma da Previdência.

Não resisto a uma piada e digo que só faltou alguém comparar suas lágrimas às de Winston Churchill ao ver, in loco, o sofrimento das pessoas após um bombardeio aéreo nazista ou, trazendo para a contemporaneidade, anotar que a pressão lacrimal de Maia é semelhante aos tremores corporais da brava chanceler alemã Angela Merkel. Porém as piadas têm um fundo de verdade e é inegável que os corpos feitos de carne e osso respondem à pressão.

Ao chamar para a Câmara a responsabilidade sobre um tema controverso como reformar a Previdência (vide estados e municípios, Tabata Amaral etc), Maia sabia que apanharia muito, mas talvez imaginasse que os golpes seriam os de sempre, da oposição – que ele por coerência não chama de oposição –, desferidos acima da linha da cintura e pela frente.

Talvez não estivesse preparado o inimaginável comportamento do principal interessado na reforma, que é o governo Bolsonaro. Batendo abaixo da linha da cintura e pelas costas, o Planalto atrapalhou como pôde o andamento do trabalho, pancadaria variada que foi de falas inoportunas do presidente da República e do ministro da Economia, passou por torpedos virtuais dos primeiros filhos e seus robôs, chegando a duas (duas!) manifestações de rua que achincalhavam sua pessoa e as instituições republicanas.

Não resisto a uma segunda piada: com a camisa do Botafogo, Garrincha apanhou muito e cruelmente, mas só dos adversários.

Maia chorou mas não cedeu. Ontem deixou muito claro que não vai se curvar ao delírio autocrático do bolsonarismo. Como mostra a repórter Thais Bilenky na Piauí, deu dois canos oficiais e públicos em Bolsonaro e, em seu discurso anunciando o resultado da votação, defendeu o funcionamento daquilo que o presidente da República mais despreza: a República.

Maia falou da importância do Parlamento, do Judiciário, da Política, da Democracia, da oposição, da impossibilidade de haver desenvolvimento sem institucionalidade ou, antes, onde a institucionalidade é atacada. Para bom entendedor, a mensagem é clara. E a qualquer tempo e em todo lugar, isto é, sim, discurso de estadista.

A quem sentiu falta da imprensa entre as instituições lembradas no discurso, fica a dica: na cobertura da reforma apresentada até agora, nem de longe houve o espaço para o contraditório verificado no Parlamento. Que sirva de exemplo.

 

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments