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Tabata Amaral e a parapolítica

Acredito que Tabata Amaral tenha votado por convicção a favor da reforma da Previdência. E, de modo geral, tenho gostado do mandato da deputada.

Mas duvido que por convicção ela tenha se filiado e se candidatado pelo PDT, assim como duvido que seu silêncio ante a crise que envolve congressistas que votaram contra ou a favor da reforma da Previdência, em dissonância com o decido em seus partidos, e que ela acabou protagonizando, seja por “não entender o que está acontecendo”.

Se de fato não estiver entendendo, seria melhor renunciar ao mandato e registrar em algum órgão de defesa do consumidor uma reclamação contra o curso de Ciências Políticas de Harvard, antes que a universidade saiba da declaração e peça recall da graduada. “Não estou entendendo” seria aceitável na voz de Magda. Vindo de Tabata, sai de baixo, é gozação.

É desagradável ter que dizer, mas o que está acontecendo é claro. Tabata parece ser uma jovem idealista que, tendo comido na infância o pão que o diabo amassou com o rabo, decidiu fazer alguma coisa para mudar a realidade e topou enfrentar a vida pública.

Muito bem formada graças a bolsa de estudos e ao próprio esforço, surfou bem a onda da tal “renovação política” e, para evitar os extremos ou os que definharam no pragmatismo, escolheu estar ao lado de Ciro Gomes, que tem posições bastante claras sobre a Previdência que gostaria, e assinou ficha no PDT trabalhista de Leonel Brizola e João Goulart, cujo programa, mais do que claro, é histórico.

Estar ao lado do Ciro, que se posicionou como terceira via na corrida de 2018 era conveniente, bem como conveniente foi receber de colher o apoio de lideranças estudantis alinhadas à plataforma do candidato. O mandato de Tataba responde bem às bandeiras da melhora na Educação. Mas ao se posicionar contra a proposta pedetista ela rompe com o programa e com o projeto eleitoral de Ciro para 2022.

A principal acusação contra Tabata é que ela defende antes de tudo os interesses empresariais de seu padrinho Jorge Paulo Lemann. Seria fácil mostrar que não, vindo a público criticar as benesses fiscais para a Ambev produzir água com açúcar em garrafa pet na Zona Franca de Manaus, ou mostrar que está de olho no julgamento da Carf sobre a autuação da companhia em R$ 5,5 bilhões, por “passeio de ações”, tipo de chicana financeira, adiado para agosto. Por ora, a afilhada está calada.

Outra acusação vem da suspeita de que, por nascer politicamente dentro do movimento Acredito!, que evolui com a pré-candidatura de Luciano Huck em 2022, sua primeira fidelidade seja com o movimento e não com o partido pelo qual foi eleita.

O apresentador, por sinal, falou em defesa de Tabata e outros, atacando os partidos nos seguintes termos: “As velhas raposas da política, que nas últimas eleições escancaradamente lustraram suas imagens no verniz dos jovens candidatos da renovação encubados pelos movimentos cívicos, agora destemperam e agridem tentando levar vantagem. Não entenderam que junto com a renovação vem a coragem e a independência para remar a favor do país e não de interesses eleitoreiros.”

Ora, onde estavam a “coragem e a independência” do incrível Huck quando botou o bloco na rua em 2018 e baixou a bola quando chamado a uma definição pela Rede Globo? E ainda: querer renovação política sem respeito às instituições – e partidos são instituições – é a cara do bolsonarismo, não do bom-mocismo dos movimentos cívicos que o apresentador integra e patrocina.

A cientista política Tabata Amaral tem formação suficiente para entender que movimentos cívicos e grandes corporações, quando atuam na fronteira da institucionalidade e do Estado, criando as próprias regras, abrem as portas para a pior política, um tipo de parapolítica.

Para enriquecer o enredo, um grupo de trabalho do TSE, liderado pelo vice-presidente da corte ministro Luis Roberto Barroso, propôs voto distrital misto já para as eleições de vereadores em 2022.

Tabata, que esteticamente busca se aproximar da congressista estadunidense Alexandria Ocasio-Cortez (AOC), democrata eleita pelo 14º distrito de NY, que inclui o Bronx e partes do Queens, deveria se inspirar no todo, não só no batom.

AOC derrotou nas primárias o cacique democrata Joseph Crowley, que pouca ou nenhuma ligação tinha com o distrito. Sua campanha não precisou de muito dinheiro, por ser local. E melhor: no sistema eleitoral distrital, a eleição é majoritária, obrigando os candidatos a definirem claramente sua posição político-partidária. A soma desses fatores fortalece os partidos e a depuração interna de suas lideranças.

Quer dizer, a chance de AOC adotar um caminho diferente do proposto pelo partido democrata e ser acusada de atender aos interesses de um financiador bilionário, é inúmeras vezes menor do que a de Tabara Amaral. Melhor para a representante, para o representado, para a cidade e para o país.

 
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