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Rocketman e as estrelas que esquecemos de contar

Da música dos negros do sul dos Estados Unidos nasceu o jazz, que ganhou o mundo, e que tem pelo menos duas crias internacionais: o Rock and roll e a Bossa Nova.

Estou com isso na cabeça desde que, espectador tardio, assisti Rocketman no cinema. Especialmente por causa da cena em que, chegando aos Estados Unidos para o primeiro show, Sir Elton John sofre um ataque de ansiedade e se tranca no banheiro. Motivo: os Beach Boys estavam na plateia.

Para a gente aqui do subúrbio – minha impressão é que, da perspectiva ilhoa, a partir da Irlanda todo o oeste é uma fazenda –, o complexo de vira-lata abana o rabo quando vê um inglês tendo entre as pernas, por conta de uma banda de praia americana, também o rabo.

Com toda a admiração que tenho pela Inglaterra e suas tradições, não escapo do prazer ao ver como foi possível que os colonizados influenciassem tanto os colonizadores. E justamente pela cultura suburbana, de periferia.

Discos de folk, country e jazz já eram disputados em Manchester, Liverpool , Londres, quando aterrissa Elvis Presley calçando sapatos de camurça azul. Dez anos depois teríamos Beatles e Rolling Sotnes. Mais dez, Elton John e Queen. E The Who, Sex Pistols, Led Zeppelin, Pink Floyd.

É claro que o socorro determinante na Segunda Guerra contou. Os Estados Unidos cobraram caro, caríssimo, mas entregaram o serviço e salvaram o mundo do nazismo. E há quem sustente que, não fosse a imprudência kamikaze do Japão, teriam deixado Hitler rolar. Mas no fim deu tudo certo e o saldo foi positivo, especialmente para os EUA, que entraram nos anos 1950 cheios de ouro inglês e crédito mundial.

Para o vira-lata aqui, porém, mais do que o Rocketman, impressiona as estrelas que esquecemos de contar. Uma semana antes do dia mundial do rock morria João Gilberto, que misturando samba e jazz inventou a Bossa Nova em 1958.

Em 1962 João Gilberto, Tom Jobim, Oscar Castro Neves, Sérgio Mendes, Roberto Menescal, Carlinhos Lyra, Milton Banana, Luiz Bonfá, Agostinho dos Santos e outros tantos craques entravam no Carnegie Hall, em Nova York, e ganhavam o mundo.

Na plateia, atentos, Dizzy Gillespie, Miles Davis, Tonny Bennett, Gerry Mulligan e grande elenco bebiam café brasileiro oferecido pelo Itamaraty, anfitrião da noite ao lado da gravadora Audio Fidelity. Desabaram quando Tom encerrou Corcovado, seguido pelo João, com Desafinado e Samba da Minha Terra.

Algumas das estrelas sequer conseguiram voltar ao Brasil, João e Tom incluídos, claro. Levados a Washington, foram recebidos na Casa Branca, e ouviram de Jackeline Kennedy que sua canção predileta era Maria Nobody. Ninguém precisa de imaginação aguçada para ver a primeira dama no sacolejo suave.

Foi um colosso. A Bossa Nova ganhava o maior mercado do mundo. Além de discos, shows e direitos autorais, o selo vendia de carro a cigarro, passando por roupa, lava-roupa, café, refrigerante, aspirador.

Dá pra ter uma ideia do baque que a batidinha provocou. Fora o arranjo inteiro para exportação, que incluía Oscar Niemeyer, Juscelino Kubistchek, Eder Jofre, Anselmo Duarte, Cândido Portinari, Vinicius de Moraes, Maria Tereza e João Goulart.

Ninguém pode ser acusado de teórico da conspiração se disser que a Casa Branca empalideceu em receio. A história prova que sim e que o governo americano atuou para castrar o Brasil com o golpe de 1964, derivando em 21 anos internacionalmente infecundos, cujas marcas permanecem fortes na nacionalidade.

Ainda assim, a culpa pelo destino medíocre, pelo talento desperdiçado, pela pobreza moral é nossa, toda nossa. Que nos perdoem as estrelas que esquecemos de contar, principalmente porque parece que delas não queremos nos lembrar.

 
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