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Let it be

No meio do caminho tinha um namoro de portão. O casal estava ali, tranquilo, na calçada, trocando os mais variados beijos, dos novelões aos de esquimó. Tentei ser discreto, mas dentro do incontornável pude reparar que vestiam roupas funcionais com o emblema de uma multinacional.

Para ficar mais claro, não era bem no portão o namorinho de portão. O casal estava amparado pela mureta de um canteiro que fazia as vezes de banco, equipamento quase inexistente em São Paulo. O lado bom é que na mureta não tinha espeto anti-mendigo. E também que a mureta ficava bem em frente à entrada principal da multinacional.

Para ficar ainda mais claro, o casal que namorava como se nada mais no mundo importasse, isto é, do melhor jeito, era um casal de mulheres. Sinto que em 2019 a cena ainda mereça comentário, mas os fatos estão aí: o Brasil é campeão mundial de violência contra LGBTs. Violência social, diga-se, porque em mais de setenta países a homossexualidade, criminalizada, deve se esconder para não sofrer violência do Estado.

Mas o que eu queria dizer sobre a cena é que, em que pesem reveses pontuais, a violência, o despudor de quem se sente no direito de interferir na forma de amar alheia, o que o namoro de portão entre duas mulheres mostra é que curso da cultura civilizatória não será interrompido, como notou a professora Rosana Pinheiro-Machado em artigo recente. Aqui.

As novas gerações são um colosso. No sentido da tolerância, da pluralidade, do entendimento, do respeito à individualidade, parecem até geneticamente modificadas. Igual a tudo na vida, tem os prós e os contras, mas por hoje fiquemos com os prós.

Olhe para as crianças do seu entorno. Outro dia, na fila do supermercado, havia um menino vestido de tartaruga ninja e, como era meu xará, Leonardo, perguntei se a festa tinha sido boa. Quem respondeu foi a mãe: não teve festa, ele gosta de se vestir assim.

O comportamento é cada vez mais comum. Super-heróis, borboletas, fadas, princesas, esportistas estão pelas ruas, indiferentes ao julgamento social. O entendimento entre indústria, comércio, escola, família é claro. Está tudo bem para todos. Let it be.

Apelo para a Língua ilhoa por um motivo além dos Beatles. Se só recentemente a homossexualidade deixou de ser crime por lá, hoje a Igreja Anglicana, ou Igreja da Inglaterra, cuja chefe é a Rainha, e cujas escolas formam a elite mundial, decidiu que a fantasia na infância é sagrada, logo, ninguém deve ou pode interferir se um menino quer ser fada e uma menina quer ser viking. Perfeitamente coerente para uma denominação que, já quando nasceu, entendeu que poderia ser católica e reformada ao mesmo tempo.

Aqui no Brasil, onde a sociedade é ostensivamente ameaçada por um governo que fala em descobrir alguém “terrivelmente evangélico” para chamar de seu – contradição em termos, porque ou se é evangélico, ou se é terrível – a agenda reacionária pode ladrar, mas a caravana vai passar.

Se uma ministra maluca diz que uma princesa de desenho animado vive num castelo de gelo porque é lésbica, o bispo Edir Macedo, muito mais poderoso e perene do que qualquer ministro, defende publicamente a união homoafetiva e o direito da mulher ao próprio corpo desde o século passado, ou antes da TV Globo descobrir o talento da brava Fernanda Lima.

Enfim, é tarefa de todos prestar atenção e resistir para minimizar danos na passagem por este período difícil. Mas tenham fé: vai passar. Let it be.

 
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