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Prejuízo geral

Fui dormir e acordei com a piada na cabeça. É a história de um tiozão brasileiro cheio de certezas que envia o filho para estudar na Inglaterra. Um dia o rapaz telefona e o pai pergunta como está o tempo. Chovendo, responde o filho. E o pai: aqui também, então eu acho que é geral.

Aparentemente são dois os motivos para os meus “algoríntimos” terem buscado a piada, e ambos têm relação com a eleição de Boris Johnson para primeiro-ministro do Reino Unido.

O primeiro é a semelhança entre Johnson, Trump e Bolsonaro, o que justificaria o “acho que é geral” para o fenômeno político que torna populistas irresponsáveis em chefes de governo. Sem dúvida é um palpite exagerado, posto que o mundo é maior, há diversos bons governantes em atividade e mesmo nestes três países a opinião pública está dividida. Mas não pode ser desconsiderado.

O segundo é tem a ver com a espantosa quantidade de gente que apoia e difunde fatos alternativos baseados em certezas sem sentido. Johnson, por exemplo, compara a União Europeia com o plano de dominação continental nazista, quando a verdade dos fatos é justamente o inverso: a união da Europa deriva do esforço conjunto para vencer Hitler. Qualquer semelhança com o “nazismo de esquerda” de Bolsonaro ou a refutação das mudanças climáticas de Trump não são mera coincidência.

Pela minha vida pessoal, imagino como está difícil a vida pública no mundo. Não sem prejuízos – emocional, profissional, social – decidi que não converso mais com quem nega os fatos. Saí de diversos grupos de mensagens quando vi que era inglória a tarefa de combater as chamadas fakenews, bloqueei amigos nas redes sociais, deixei de frequentar certos ambientes e círculos. Sigo conversando com amigos divergentes, o que me faz muito bem, mas definitivamente cansei de bater palma para louco dançar. O que me dói é pensar nos que não têm a mesma possibilidade. Políticos, diplomatas, líderes religiosos. Até quando poderão resistir?

A Folha de hoje trouxe uma análise do Gideon Rachman, originalmente publicada no Financial Times, jornal conservador inglês, que narra a conversa do analista com um parlamentar também conservador britânico, aflito com a ascensão de Boris Johnson.

No papo ambos descobrem que haviam lido recentemente um livro de memórias de Sebastian Haffner chamado Desafiando Hitler. Escrito em 1939, portanto na antessala da Segunda Guerra Mundial, e tendo os anos 1930 por cenário, o intelectual alemão “oferece um vislumbre extraordinário sobre como é viver em um período de turbulência política”.

Com pesar, Haffner anota que confiou demais no que chamou de “ceticismo calmo”, acreditando que o “funcionamento normal das instituições e a continuidade do cotidiano normal era uma vitória contra os nazistas”. Conclui que “sua inquietação juvenil era justificada e que a riqueza da experiência de seu pai estava enganada, porque há coisas que não podem ser controladas pelo ceticismo calmo”.

Rachman encerra dizendo que segue sob o “ceticismo calmo” em relação a Johnson e Trump, mas se vê numa fase da vida mais ou menos parecida com a do pai de Haffner em 1933.

Naquele período, outro inglês que também foi primeiro-ministro, dizia aos entusiastas do “ceticismo calmo”: conciliador é aquele que alimenta o monstro na esperança de ser devorado por último. Chamava-se Winston Churchill e acabou derrotando Adolf Hitler. Mas não sem muito prejuízo – geral.

 
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