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Há República? Há Democracia?

O presidente da República ameaça expulsar um jornalista estrangeiro do país. Repórteres são retidos pela Polícia Federal e passam horas incomunicáveis. O ministro da Economia manda quebrar o sigilo bancário de um operário. O governo de outro país espiona a Presidência da República, assim como a Justiça do próprio país, que grava autoridades sem autorização legal e vaza o material para a imprensa. Ministro é constrangido em hospital, onde acompanhava a mulher em tratamento oncológico. Um hacker é preso por violar o celular e chantagear a primeira-dama.

Tudo isso foi nos últimos três governos. O jornalista estrangeiro era correspondente do NYT e escreveu que Lula era dado ao etilismo; durante o mensalão, repórteres da Veja ficaram retidos na PF; Palocci mandou a Caixa fuçar na conta de Francenildo Santos, caseiro da chamada República de Ribeirão; os Estados Unidos espionavam Dilma Rousseff e a Petrobrás, assim como a Lava Jato sob o juiz Moro gravou e vazou ilegalmente uma conversa entre Dilma e Lula; Mantega foi atacado no Einstein; Marcela Temer teve o celular invadido e o criminoso foi preso.

Marmota nacional, tudo se repete sob Bolsonaro. E em parafuso – que é a origem do nome Bolsonaro. Robôs, blogueiros chapa-branca, a “lide” do governo no Congresso e o próprio ministro da Justiça atacam Glenn Greenwald; jornalistas são afastados de suas atividades por pressão oficiosa; o senador Flávio Bolsonaro, enroladíssimo na Justiça, ventila notícias falsas sobre transações bancarias no Senado; autoridades brasileiras, em visita oficial aos EUA, visitam fora da agenda a sede da agência de espionagem daquele país; Weintraub é constrangido no Pará jantando com a família; suspeitos de hackear mais de mil autoridades e jornalistas são presos.

Como tudo sempre pode piorar, piorou. E piorou porque aumentou o despudor com que a República vem sendo tratada.

Quando o chefe das forças armadas ameaça o Judiciário no twitter, quando o próprio Judiciário é utilizado como acessório eleitoral, quando o filho ZeroTrês sugere que basta “um soldado e um cabo para fechar o Supremo”, quando o presidente da República faz malcriações e mente a jornalistas tanto nos quebra-queixos quanto como anfitrião num café da manhã no palácio do Planalto, quando o filho varão mente oficialmente e é beneficiado por decisão monocrática do presidente do STF durante o recesso, quando o juiz de primeira instância que violou e vazou uma conversa da presidente da República vira ministro do governo seguinte e ainda é festejado pelos excessos, mais do que a República, padece a própria Democracia.

Definitivamente, a mensagem chegou ao “guarda da esquina”, figura de linguagem atribuída a Pedro Aleixo, vice-presidente do ditador Costa e Silva, que teria ponderado sobre os efeitos do AI-5 sobre as autoridades mais rasas. Bidu, sentiu ele próprio o peso da ditadura que apoiara ao ter o mandato extinto e ser impedido de assumir a Presidência quando Costa e Silva foi afastado por motivo de saúde.

A lógica do “guarda da esquina” é semelhante a da brincadeira do telefone sem fio, onde a mensagem é deturpada na transmissão. Com efeito, se começar ruim, chegará ao destino ainda pior.

Para ficar em três exemplos do efeito Bolsonaro sobre o “guarda da esquina”, cito o músico fuzilado com mais de duzentos disparos no Rio de Janeiro, cujos algozes, soldados do Exército, estão em liberdade por ordem do Superior Tribunal Militar; a invasão sem mandato de um sindicato de professores por policiais federais rodoviários (!) na véspera da visita de Bolsonaro a Manaus (a PRF diz que foi a mando do Exército, que nega – vai ficar assim?); uma ativista do MTST está presa em São Paulo acusada de um crime pelo qual já foi processada e absolvida.

 

Há República? E Democracia?

 
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