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Covarde e cara-de-pau

Nada, absolutamente nada justifica o que saiu da boca do presidente da República ontem. Ele já tinha feito outras dessas em sua lamentável trajetória, mas depois de empossado, mesmo considerando o nível de sandices proferidas todo dia santo, não havia chegado a tanto.

Já comentei o aspecto moral, lamento profundamente o prejuízo emocional da população, e é óbvio que haverá consequências políticas, como atraso da agenda. Mas é o que temos para hoje e para os próximos três anos e meio.

Apesar de não haver justificativa, vale a pena ver como o caso escalou para ter dimensão da fragilidade emocional de quem nos governa.

Bolsonaro queria um resultado diferente sobre o inquérito de Adélio Bispo, que o esfaqueou em Juiz de Fora durante a eleição. A Polícia Federal fez pelo menos duas investigações e concluiu a mesma coisa: Adélio é louco, agiu sozinho e seus advogados atuaram pro bono.

A defesa do presidente finalmente aceitou o resultado, não recorreu e o caso foi encerrado. Porém, contrariado e a fim de inflamar seus seguidores, principalmente aqueles 18% que votariam nele antes do atentado, a receita raiz é atacar covardemente alguém ou uma entidade e elogiar os crimes da ditadura militar.

O alvo escolhido foi o presidente da OAB Felipe Santa Cruz, cujo pai foi torturado, assassinado e teve o corpo incinerado pelos militares. Tudo porque a entidade fez questão de defender a Constituição e garantir que o sigilo entre advogado e cliente fosse preservado no caso Adélio Bispo.

Molho perfeito para o repasto bolsonarista: OAB, presidente filho de preso político na ditadura, advogados criminalistas e o homem que tentou assassinar seu Messias. É claro que a Polícia Federal também tem motivo, enquanto instituição, para se sentir ofendida. Mas isso não ocorre ao presidente e seus súditos.

Mais curioso, no entanto, é a cara de pau de Bolsonaro em fingir que não acredita em advocacia pro bono ou em troca de holofotes. A prática é comum no mundo inteiro. Para os hackers de Araraquara há fila na porta da delegacia. O papa dos criminalistas Márcio Thomaz Bastos dizia: um caso tem que dar pão ou glória – se der os dois, melhor.

E o próprio Bolsonaro ganhou um pacotão de presente e pagou com ingratidão. Gustavo Bebianno advogou de graça em várias ações que o então candidato Bolsonaro respondia e continuou advogando já enquanto foi ministro.

Quando resolveu enviar o auxiliar ao microondas (fritura no glossário miliciano), Bolsonaro usou a Casa Civil da Presidência da República para se acertar com Bebianno. Em telefonema a Onyx Lorenzoni pediu que o ministro interferisse a fim de garantir que não haveria cobrança, caso contrário teria que vender um imóvel para pagar.

De novo, é isso que temos na Presidência da República.

 
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