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Sobre grades, fronteiras e gangorras ou vem, Rael

Não sei se a turma da rua queria jogar vôlei ou se a vontade era só aprontar alguma. O fato é que Japa, Júnior, Peão, Peidolfô ou Arrotolfo, eu e outros decidimos pular o portão de uma casa desocupada e usa-lo como rede entre os times da garagem e da calçada.

A casa já tinha sido alugada para diversas atividades. Escola, escritório, puteiro. Mas a maior parte do tempo esteve vazia e sem função, situação que, somada à ociosidade criativa da molecada, acabou em jogo de vôlei.

Corria bem a partida quando um carro estacionou com certa agressividade e dele saltou um casal enfurecido. Eram os donos do imóvel vazio. O time da calçada correu, cada qual para seu prédio. Mas eu e os companheiros que defendíamos o chão da garagem não tínhamos como escapar com o tiozinho muito bravo gritando junto à grade.

Ele dizia que era invasão, que podia atirar, que ia chamar a polícia, que a gente seria preso. Alguns do meu time se desesperaram. Se não me engano, um chegou a ajoelhar e pedir clemência. Em vão.

Sei lá como funciona a minha cabeça, mas desde moleque tendo a sofrer com ansiedade quando prevejo um problema. Depois que acontece, quando a cagada vira um fato, reconhecível, analisável, relaxo e volto a raciocinar com calma.

E assim, nem aí, eu encarava o dono da casa e sua senhora. Quando enfim ele parou de gritar, se mostrou indignado com a minha cara de relógio sem ponteiros. Então pedi desculpas pela invasão, disse que não havia prejuízo e que não faríamos de novo. E que ele podia usar a chave para deixar a gente sair ou poderíamos pular o portão, como havíamos feito para entrar. Talvez por apego à ordem, ele abriu a grade, deixou a gente sair e xingou mais um pouco. Ainda sugeriu que queria conversar com os nossos pais, mas era tarde. Ficou falando sozinho.

Em seguida, reunida a turma, minha calma virou assunto. Logo o gordo ansioso, o mais mimado, na hora da dura, ficara tranquilo. Como?

Hoje eu acho que a soma das fraquezas é que produziram uma força. Por ser ansioso eu sabia que podia dar problema e de alguma maneira me preparei, mesmo que inconscientemente. Por ser gordo, correr não era uma opção, ou pelo menos não se considerando que todos corriam mais do que eu. E principalmente sendo mimado, filhinho da mamãe, eu sabia que era protegido, que com a polícia não daria nada – ou anda ficaria pior para o adulto – e muito menos aquele senhor agrediria meninos brancos, de classe média, usando tênis importados e morando em paróquia “nobre”.

Com a boa notícia que encerrou julho, do brilhante arquiteto e professor de Berkeley Ronald Rael, que instalou gangorras na fronteira entre o México e os EUA, a história da turma da rua foi pescada pelos meus algoríntimos.

Rael e sua equipe pensam no brinquedo há dez anos, lembrando que o muro vem sendo construído desde muito antes de Trump, mas que deixaram de falar sobre. Boa gente, o arquiteto enxerga o lado positivo do muro como discurso eleitoral, porque acende o debate.

Este modo de pensar está no cerne da ideia genial da gangorra: a ação de um lado que provoca uma reação do outro, o equilíbrio que vem do desequilíbrio, o trabalho de um que depende do trabalho do outro, a empatia obrigatória entre as pessoas que nela brincam.

A brincadeira durou pouco, mas não por impedimento dos guardas de fronteira mexicanos ou estadunidenses. Estes não interferiram e alguns até sorriram. Durou pouco porque era mesmo um evento – muito bem sucedido – e a segunda fase é passear com a ideia por aí.

Rael, por favor venha aqui para o Jardim Paulista, na cidade de São Paulo, Brasil. Aqui os chamados bairros verdes, que teriam jardins por toda a parte, estão hoje cercados por gradís muito parecidos com o que divide Ciudad Juárez e o Texas. Pelas calçadas, entre os mais de cem mil desabrigados paulistanos, há muitas crianças, vendendo pano para a classe media passar, pedindo fraldas e leite em pó. Dentro dos condomínios, outras tantas crianças, todas presas e separadas de seus pais, vigiadas por babás. Seria ótimo a gangorra da sua turma para que elas pudessem brincar.

 
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