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Ô loco!

Era uma noite de verão dos meus quinze anos. Na véspera eu capotara o carro da minha mãe descendo o morro do Cambury no sentido da Baleia. E para voltar do Flamingo, bar que a turma usava naquele então, arranjei carona com minha amiga Marina Coelho.

Quando entro no carro, percebo dois jovens senhores como que escondidos no banco de trás. Eram Flávio Mulata Lopes Coelho e Carlos Vavá Viacava. Tinham saído escondidos da tia Carmita, num trato com a Marina, que fora flagrada roubando o carro: ninguém cagueta. Mulata, Carmita e Marina são pai, mãe e filha.

Mulata e Vavá falavam da importância de nós, jovens, estudarmos muito, sobretudo matemática – caso contrário correríamos o risco de virar pato em mesa de sinuca.

Logo a prosa evoluiu para o meu acidente, que estava comentado na praia. Contei mais ou menos o ocorrido, mas o Mulata não ficou satisfeito. Faltava saber como eu tinha resolvido os problemas óbvios que decorrem de um capotamento. Respondi que essa parte era da minha mãe, a minha foi só capotar. Ele repetiu a história sempre que me encontrou nos 25 anos seguintes.

Pouca gente era tão amiga dos amigos como o Mulata. Gostava de todos presentes, mas não cobrava ninguém. “Amigo não tira extrato.” E criava eventos para que todos se encontrassem. Por exemplo, copa do mundo. Casa aberta para todos os jogos, não só os do Brasil. Nos dias que ele não podia estar, a turma comparecia mesmo assim. Sei lá, Tanzânia X Sealândia às 15h00. E ainda pediam para a Carmita fazer pipoca e tirar gelo para o uísque.

Outro evento, e com a vantagem de ter todo ano e ser continuado eram os preparativos para o carnaval. Mulata comprava o LP dos sambas-enredo e convidava os amigos para decorar as letras. Ismar Freitas Jr. não perdia uma. Era pelo menos janeiro inteiro, todo dia. E ele próprio era compositor. Quem se lembrar da letra do Samba da Barra do Sahy, por favor anote nos comentários. “Gosto de você mais do que brincar o carnaval” era uma de suas frases para demonstrar ainda mais afeto.

Também dizia, ao ver um casal junto: dá uma namoradinha aí. Ou, para juntar os amigos, propunha: vamos fumar que nem louco? Inquieto, não deixava ninguém sem gelo. Repetia sempre: gelo não pode boiar.

Dedicou-se muito ao etilismo. Em vasta quantidade mas sempre com qualidade sem igual – e aqui não vai exagero. Ou você conhece alguém que já fez Bellini espremendo os pêssegos na hora? Mulata sim, e João Augusto Pereira de Queiroz e Edmundo Furtado podem confirmar.

Seu coquetel predileto era o Negroni. A receita, impecável, fazia as bebidas se juntarem naturalmente, desde que a ordem de entrar no copo fosse respeitada: gin, Campari e Carpano.

Quando o Mulata entregou a mão da Marina ao Germano Fehr, quem celebrou o matrimônio foi o Lelo Gordo e eu fui coroinha. A comunhão teve sanduíche de pernil do Estadão e a benção foi com uísque.

Um dia o Marcelo Casarini chegou da Inglaterra com mania de single malt. Lá na Barra do Sahy a turma já estava bem curtida desde a praia, passando pelo churrasco, quando resolveram abrir os trabalhos de degustação. Carmita foi contra: era o bastante para um dia, e vinha pedir para a turma ir dormir de tempos em tempos. Então deu uma chuva de verão com granizo que virou uma telha da casa de pescador e uma pedra caiu dentro de um copo. Efeito geral: se contar ninguém acredita. E o Mulata: ah, mas a Carmita vai ter que acreditar, ela gostava muito do papai e é claro que só pode ser ele aqui com a gente.

Era o advogado e escritor de contos policiais Luiz Lopes Coelho, grande falencista, de quem Mulata herdou a banca. Seu maior desejo era que a OAB permitisse propaganda de advocacia, quando ele instalaria no Viaduto do Chá um neon piscando alternado: Lopes Coelho – falências / concordatas / falências / concordatas.

Um dia fui à cidade almoçar no Clubinho e encontrei Mulata e Dadau. Eles tinham uma reunião importante e não podiam se estender. Dadau saiu antes para ir preparando as coisas no Zarvos e Mulata ficou. E foi ficando, ficando. De repente, deu um pulo. Estava em cima da hora. E sobrou um protesto para mim, que tinha ido com um parado para trocar a pilha na cidade.

Jogou muita bola. O time do Pinheiros mais famoso contava com ele, Alfredo Alemão Zanussi, Armando Arruda Camargo e Esquerdinha, que tem a foto exposta no bar da pizzaria Margherita.

Quando montei meu restaurante na Barra do Una, batizei de Mulata, e botei no cardápio a farofa de ovos da Márcia, caseira da casa deles na Barra do Sahy.

Já vou encerrar, mas é impossível não falar do Roberto Oliveira Reis, que estagiou no Lopes Coelho e, quando resolveu voar, foi elegante em levar um litro de um uísque fino ao Padock para agradecer. Como não tinha o rótulo na casa, Reis teve que sair várias vezes para encher o vasilhame.

Num aniversário de bodas de data redonda, Carmita e Mulata receberam os amigos para celebrar. Mulata saiu cedo do Zarvos e estacionou no posto da Rua Araújo para abastecer, ver o pneu, a água, essas coisas que ele detestava. Para evitar o tédio em dia de festa, preferiu esperar o serviço no boteco em frente.

Eis que entra um sujeito sujo de tinta e o Mulata puxa assunto: “Amigo, você é pintor? Estou com um problema no escritório, tive um vazamento e tal. Toma aqui meu cartão e passa lá quando puder, por favor. Aceita um gole? E o que mais você faz? Toca cavaquinho?” Resumindo: Mulata quase perdeu as próprias bodas. Quando se deu conta, telefonou à Carmita e disse: “Meu amor, estou a caminho. Vai arranjando uma desculpa para mim porque as minhas acabaram.”

Mulata faleceu na manhã de hoje e as desculpas se acabaram de vez. Ele estará conosco para sempre, em todas as rodas, todos os bares, todos os encontros.

 
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