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Mais Mulata

Bate o telefone na nossa casa de Juquehy. É o Edgard Queiroz Ferreira, em tom irritado, que não é comum. Perguntava se eu conhecia o Flávio Mulata. Entre me entregar perguntando por que e mentir, fiz a segunda opção: Só de chapéu, tio Edgard.

Dois dias depois ele aparece em casa. No segundo gole, incisivo, ele diz: Conheci SEU AMIGO Mulata. Fiz cara de relógio sem ponteiros. Ele continuou: a Barra do Sahy e parte da Baleia amanheceram sem água. Porque o Dadau e um amigo, Guga Escobar, numa manhã voltando da noitada em Maresias, resolveram testar um jipe no terreno onde fica a fonte que abastece toda a área. Atolaram. Como o Guga tinha um jipe supostamente melhor, foram buscar para tentar o resgate. Atolaram de novo. Então pediram socorro ao funcionário da prefeitura que operava a máquina que alisava as ruas de terra. Como também patinou, teve que acionar o sistema tarântula, que entrou fundo no chão e rompeu o duto, agravando o lamaçal e interrompendo o abastecimento geral. O terreno é do tio Edgard.

Não foi difícil descobrir onde era a casa do Mulata e lá foi ele, puto. Foi recebido, convidado a sentar, perguntado sobre o que queria beber. Explicou o caso.

Mulata chamou Dadau e Guga, passou um pito, pediu para o tio Edgard enfatizar e mandou os dois pedirem desculpas. Finalizou perguntando sobre o prejuízo e fez um cheque. Nasceu uma amizade.

O senso de justiça do Mulata era fantástico. Um dia ele chega no Zarvos e dá com uma cara desconhecida na recepção do escritório: Pois não? Este cartão é do senhor? Sim, Flávio sou eu. Então leia o verso, por gentileza. Era sua caligrafia (algo garranchada) dizendo: Bati no seu carro (estacionado), por favor me procure para acertar a despesa.

Aquele mesmo portão em que o tio Edgard bateu o Zé do Pé abria receoso, botava só o nariz para dentro e gritava: Flávio! Flávio! Oi, Zé, entra! Mas a Carmita está presa?

Zé do Pé, boêmio matutino e vespertino, raramente notívago, levantava cedo e ia à vila comprar pão, manteiga, leite. Um dia, antes das sete, conheceu um pescador que pedira um rabo de galo. Intrometido, disse: amigo, assim você se prejudica. E o pescador: o que tem hora para tomar é remédio. Virou lema da turma.

Não que fosse novidade. O pintor Clóvis Graciano, que tinha casa por ali, ia de manhã com a enfermeira à barraca da Isabel e pedia uma caipirinha, no que era censurado. Então dizia: ok, me dá uma cerveja antes, porque não me deixam beber em jejum.

Zé do Pé precisava ser simpático com a tia Carmita. Porque fazia muita grosseria. Para a viagem desde São Paulo, propunha: Carmita, eu vou no banco da frente e você volta atrás.

Uma vez foi expulso da casa da Ibsen da Costa Manso. Cozinhando um cordeiro, disse a convidados refinados que o prato proporcionava “bosta grossa”. Revoltado, saiu com a faca de cozinha e acabou com a roseira do jardim frontal. Ocorre que a poda brava resultou numa safra de flores jamais vista. Outra amizade “carne e unha” brotava.

Outro amigo acolhido e depois expulso foi o Julinho Toledo Piza, ou Julinho do Lenço, para distinguir do Julinho Parente. Numa fase de ajuste fiscal, foi morar na edícula da dona Carmita. Tudo correu bem até que a empregada reclamou: Julinho estava espiando a moça na hora do banho. Teve que sair.

Julinho, Mulata e eu entramos juntos para a Confraria do Gato, fundada num voo de longa distância equipado com bar na popa. Carlito Guimarães e Vavá Viacava foram os inaugurais.

Para fazer passar a viagem, cantaram a música-debate sobre o gato que bota ovo. Gentilmente, traduziram aos companheiros de bordo que desconheciam a Flor do Lácio: bitch have a baby / my cat put a egg / cat don’t put egg / bitch have a baby again.

De volta ao Brasil, contaram aos amigos da fundação da confraria e o critério para adesão: trazer uma música com gato. Entramos com a que o Paulo Vanzolini fez para o Adoniran Barbosa. Julinho adora, Mulata tinha afinidades pela “espanhola” e pelo coelho presente. “O pivô, do enguiço foi um gato / pertencente a cidadão / por nome de Rubinato / o miau sumiu, ele botou, o dedo ni mim / Só porque me viu / encourando um tamborim / … / eu provo que o tamborim eu fiz com o gato da espanhola / Seu Rubinato, vou lhe dar um bom conselho / Você arranja outro gato e a Marli lhe ensina a fazer coelho.

Mulata adorava piadas com seu nome. Vestia sempre uma camiseta de gola bem careca estampada com a imagem de uma praia chamada Long Leg. Perguntado sobre onde era a praia, respondia: charada.

Um dia ganhei um cruzeiro de presente. Ismar Freitas tinha comprado para os amigos e o Luciano Fleury Filho não pôde embarcar. Avisado de última hora, fui atrás de um maiô, mas parei para almoçar na Dona Onça. Grande equivoco! Encontrei Mulata e Edmundo juntos. Grande encontro! Eu só tinha que comprar o maiô, mas o Mulata tinha que ir à OAB levar um documento que permitiria à Carmita votar no próximo pleito. Nem um, nem outro plano acabaram realizados.

Na saída, a conta daquele estacionamento no delta entre a Ipiranga e a Araújo, como sempre, era exorbitante. Mulata cravou: não pago! E fugimos.

Ocorre que o carro tinha sido de um flamenguista, que o equipou com um alarme que tocava o hino do clube, e que obviamente o Mulata não sabia desativar. Então fugimos como um trio elétrico, “uma vez Flamengo, sempre Flamengo…” pela Ipiranga, São Luiz, Consolação – que ao encontrar a Araújo impede a gente de continuar. Tivemos que passar mais uma vez pelo estacionamento, e a turma deles querendo pegar a gente na calçada.

A próxima parada foi na Margherita do Esquerdinha. Edmundo, morando em Paraty, queria rever todos os amigos possíveis. Passa uma senhora vendendo flores e a gente arremata, já prevendo que o Mulata precisaria acalmar Carmita.

Problema: na terceira parada, bar do Beto Ranieri, tinha uma moça bonita, que ficou com o buquê.

Mulata é o advogado mais atual do Brasil. Na crise em que se encontra o mercado editorial, incluindo livrarias, sua tese vencedora merece ser lembrada.

Falencista, ele pegou o caso de uma editora cuja falência fora requerida por um fornecedor defendido pelo seu amigo João Câncio Leite de Melo (saudoso professor que me ensinou usar abotoaduras e beber Dewar’s). O hoje desembargador Tasso Duarte de Melo, então menino, lembrou da história. A tese vitoriosa do Mulata foi que não se pode quebrar uma empresa que, num país refratário à leitura, rema contra a corrente. Tasso lembra que, desde então, Mulata chorava sempre que encontrava os Melo pai e filho. Está em tempo de virar lei.

Preciso encerrar. Estou num batidão emocionado e não consegui ir ao velório do meu amigo. Mas bebi bastante negroni enquanto houve sol ontem, e depois uísque, lá no Beto Ranieri, à moda do doutor Edmur Nunes Pereira, onde dormi no colo do Luiz Fernando Pacheco depois de ganhar sanduiche de pastrami na boca.

Mas antes preciso lembrar de quando o Edmundo Furtado foi morar na Bahia, trabalhando no hotel do João Paulo Zumbi Arruda, praia do Espelho. Deixou as roupas urbanas na casa do Mulata, em São Paulo. Um dia, o amigo se acha sem o que vestir com gosto e visita o armário emprestado. Queria um tweed diferente. E havia vários. Experimentou e então, aos poucos, foi levando ao alfaiate para ajustar ao próprio corpo. Hoje Edmundo continua em praia, em Paraty, e não precisa dos paletós.

Mulata adorava subverter canções. Solenemente cantava com Armando Conde, o banqueiro boêmio: é sempre bom lembrar, que um copo vazio, está cheio de ar. E com os hinos fazia o inverso.

Depois do “parabéns a você”, quem quer que fosse o aniversariante, era saudado com o hino da Independência: Já podeis da Pátria filhos / Ver contente a mãe gentil / Já raiou a liberdade / No horizonte do Brasil / E quem não gostar do Mulata, vá pra puta que o pariu!

ERRATA: a história do single malt que o Casarini trouxe dos mestrado no Reino Unido é diferente. Mulata queria tropicalizar e beber com gelo. Casão dizia que bastava uma lágrima de água mineral. Nisso vira a telha e cai um granizo no copo do Casarini. E o Mulata: Falei que era com gelo!

Brasilianista, Mulata defendia nossa cultura mas, respeitando a norma do pai, Luis Lopes Coelho, dizia que “a gente não deve beber folclore”. Quer dizer: uísque não tem erro.

Mas o carro naquela viagem estava perfumado por três caixas de caju do Casarini, que os preparou com cachaça. E o Mulata acompanhou. Acordaram à três da manhã, cada um num sofá, casa fechada, todos recolhidos, Carmita uma arara. E o Mulata: Falei que beber folclore não dá certo!

 
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